Juventude, Trabalho e Educação
Juventude e mundo do trabalho: diversidade de percursos PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Qua, 19 de Setembro de 2007 12:13

Maria Inês Caetano Ferreira

Este artigo discute resultados de pesquisa de doutorado sobre famílias de jovens de uma favela na capital paulista, localizada em região de elevado valor imobiliário, e também da pesquisa de pós-doutoramento sobre jovens desempregados residentes em diversos espaços da região metropolitana paulista, sobretudo em bairros distantes da região central. Os resultados das pesquisas enfatizam a diversidade de experiências de jovens no mercado de trabalho, isso porque a juventude se compõe de grupos heterogêneos, que expressam a própria diversidade da nossa sociedade.

Os jovens entrevistados nas duas pesquisas informaram o ingresso precoce no mercado – antes dos dezesseis anos - para realizar bicos e trabalhos precários. O conteúdo das atividades dessas ocupações é simples e se associa a talentos considerados naturais aos dois sexos, a saber: para as mulheres a esfera da reprodução e para os homens o emprego do vigor físico. É importante ressaltar que esses talentos são socialmente atribuídos, em vez de naturais. Em virtude de não demandarem muita qualificação a remuneração dessas atividades é baixa.

A forma de inserção ocupacional dos jovens menores de dezesseis anos é precária e implica nas seguintes condições: impossibilidade de registro na carteira de trabalho e, assim, ausência da proteção legal, baixa remuneração, instabilidade e vínculos de curta duração. Apesar das adversidades, os jovens exaltaram as possibilidades que o trabalho lhes oferece, são elas: aprender mais sobre si mesmo, sobre como lidar com os outros e sobre novas atividades, superar os próprios limites, conquistar independência financeira em relação aos pais, desenvolver a auto-estima e adquirir mais segurança sobre a própria personalidade.

O ingresso precoce no mercado pode prejudicar a dedicação aos estudos e, conseqüentemente, o aprimoramento da qualificação da força de trabalho, o qual nutre a esperança de formas de inserção mais prestigiosas no futuro. Porém, a constatação de que algumas trajetórias de jovens não foram prejudicadas com a atividade precoce aponta um aspecto relevante que incide no modo de inserção ocupacional, a saber: o estabelecimento de contatos sociais para informar e indicar oportunidades no mercado de trabalho. O registro dessa descoberta não busca contradizer os impactos positivos da educação para a conquista de formas mais positivas de inserção de jovens de baixa renda. Tal registro propõe atentar para o fato de que – além dos certificados escolares – a informação e a indicação sobre oportunidades de trabalho influenciam o destino ocupacional.

A análise dos resultados das duas pesquisas indica que a forma de inserção no mercado de jovens de baixa renda acima de dezesseis anos também se caracteriza pela precariedade: baixa remuneração, instabilidade, informalidade, vínculos de curtos períodos, atividades simples que não empregam o conhecimento adquirido na escola. As trajetórias ocupacionais dos jovens entrevistados com poucos anos de escolaridade e aqueles com poucos anos guardam semelhanças. Ou seja, para a população de baixa renda a escolaridade não necessariamente assegura formas positivas de inserção no mercado de trabalho.

O cotejo dos dados das trajetórias da geração dos pais com as dos filhos jovens na favela aponta diferenças nas experiências no mercado entre as gerações. A maioria da população da favela migrou da zona rural na década de 70. Segundo os migrantes, um dos motivos para a migração foi o fato de que no local de origem não havia oportunidade de trabalho e geração de renda. Em contraste, na capital paulista eles se colocaram imediatamente no mercado de trabalho, em atividades simples, apesar da pouca qualificação. Nesse período a economia do país ainda se desenvolvia e novos postos de trabalho eram criados. Os filhos nasceram na capital, tiveram acesso a oportunidades de estudo, a cursos de qualificação e conseguiram inserir-se em diversas esferas (cultura, consumo, atendimento médico etc.).

Todavia, em virtude da fragilidade econômica e da conseqüente crise na geração de empregos, atualmente os jovens mais bem preparados do que os seus pais enfrentam obstáculos para inserir-se no mercado, situação que provoca desânimo e sentimento de injustiça nos entrevistados.

A análise dos resultados da pesquisa com famílias da favela aponta haver situação contrastante entre as condições da maioria dos jovens do local – sujeitos a formas precárias de inserção ocupacional – e a de alguns poucos grupos que conquistam inserção positiva no mercado. Esses últimos se ocupam em oportunidades promovidas, sobretudo, por projetos sociais desenvolvidos por instituições governamentais e não-governamentais. Essas oportunidades se concentram em atividades artísticas, culturais e educacionais, demandando a aplicação de conhecimentos adquiridos na escola. Os jovens empregados por meio desses projetos geralmente têm registro na carteira de trabalho e são mais bem remunerados do que os outros.

Uma das diferenças entre os jovens dos grupos sujeitos a vínculos precários e os que conquistam melhores oportunidades é o desenvolvimento do que a literatura especializada denomina de “competências subjetivas”. Algumas das habilidades relacionadas a essas competências são a capacidade de se relacionar, de ser amigável, de ser simpático, de agradar o interlocutor. Sorj (2000) esclarece que a expectativa em relação a esses trabalhadores é a de que eles atuem como analistas culturais, que sejam capazes de interpretar e de realizar o desejo do interlocutor. Sorj identifica essas qualificações como sendo típicas do setor de serviços, cujo intenso desenvolvimento em tempos recentes fez com que as suas demandas se impusessem sobre as dos outros setores, inclusive sobre as do industrial, o qual, até décadas atrás, se impôs como a principal matriz para a organização dos sistemas de organização das relações de trabalho.

Os argumentos de Touraine (Apud Dubar, 1998) sobre as revisões dos significados do conceito de qualificação auxiliam na compreensão do atual prestígio das competências subjetivas. Um resumo muito breve das reflexões de Touraine (Op.Cit.) explica que em uma fase inicial o conceito de qualificação se relacionava com o saber do trabalhador, que se associava à prática e à experiência; em uma fase posterior, em vez do saber do trabalhador, o conceito passou a se vincular ao posto de trabalho, às demandas das máquinas. Por fim, nos tempos atuais o conceito de qualificação se relaciona com as capacidades subjetivas e cognitivas do trabalhador, que passaram a desempenhar papel tão ou mais relevante do que a sua capacidade técnica.

No período em que os pais dos jovens da favela ingressaram no mercado de trabalho na capital as competências subjetivas não determinavam a possibilidade da contratação, ao contrário dos tempos atuais. A exigência desse tipo de competência representa um problema para a maioria dos moradores da favela. Isso porque, como explica Sorj (Op.Cit.), essas qualidades prestigiadas pelo setor de serviços valorizam traços como idade, sexo e raça que compõem os elementos que definem o padrão dominante do que se entende como boa aparência. O privilégio atribuído aos traços pessoais se assenta sobre bases subjetivas e não raramente aciona valores preconceituosos que estigmatizam trabalhadores que não correspondem ao padrão imposto. Muitos jovens informaram que foram vítimas de preconceito em processos seletivos em virtude da pele escura, da aparência simples e, sobretudo, da associação estabelecida entre os moradores da favela e a violência e a desorganização.

Os jovens que permanecem encapsulados na favela enfrentam mais obstáculos para o desenvolvimento das competências subjetivas em contraste com os indivíduos que transitam por diversos espaços, onde estabelecem contatos com valores e padrões de diferentes grupos sociais, os quais podem até ser incompatíveis entre si. Isso porque a diversidade de contatos amplia os estoques de informação, possibilitando a aprendizagem e o processamento de posturas crítica em relação aos diferentes valores e padrões de comportamento, como ensina Degène e outros (1991). Ou seja, os jovens da favela com oportunidades para transitar por diversos espaços, lidar com diferentes valores e padrões de comportamento, têm mais facilidade para se relacionar, conversar, trocar opiniões, compreender valores e ultrapassar estigmas socialmente atribuídos aos moradores da favela. Em contraste, os jovens cujos contatos se limitam ao próprio local enfrentam mais dificuldades para manipular os relacionamentos com indivíduos de estratos médios e altos e, a fim de convertê-los em situações que lhes favoreçam. Isso ocorre sobretudo com jovens sujeitos a formas precárias de inserção social, para quem os valores e padrões de comportamento praticados na favela se convertem em alicerces para a construção da identidade e do pertencimento social.

Na pesquisa de pós-doutoramento com jovens desempregados é possível observar que nos bairros distantes da região central da capital, onde há pouco investimento público e privado, as relações dos indivíduos se concentram em contatos com outros sujeitos no mesmo território e que compartilham condições sociais semelhantes, a saber: parentes, vizinhos, amigos do bairro, colegas da escola do bairro, fiéis da igreja do bairro. Os resultados da pesquisa indicam a correlação entre a ausência de investimentos públicos e privados nos territórios e a concentração de desempregados. Uma das conseqüências dessa equação é a limitada oportunidade para os jovens obterem informação e indicação de emprego com indivíduos que estão inseridos no mercado e que transitam por outras redes de relação, além da territorial. A limitada rede de contatos não prejudica somente a informação e indicação, mas também a possibilidade de reciclar valores e padrões de comportamento, de reconhecer diferentes modos de vida e de idéias, de ampliar a visão de mundo e as relações em geral.

A especificidade da realidade da favela estudada é o fato de que ela se beneficia da visibilidade da região, em virtude da valorização imobiliária. Em contraste com as localidades distantes da região central, o distrito onde a favela está instalada desperta o interesse da opinião pública. Essa é uma das razões que explica o desenvolvimento de vários projetos sociais patrocinados por agências governamentais e não-governamentais. Muitos jovens participam desses projetos, porém, poucos conseguem ingressar nas suas diversas redes de contatos, ampliar seu circuito social e conviver com diferentes códigos de valores. Os bem-sucedidos costumam ser indicados para vagas que demandam força de trabalho qualificada. Esses bem-sucedidos geralmente participam do grupo de jovens que se adaptam à diversidade de valores e de padrões de comportamento, que desenvolvem as competências subjetivas.

Os resultados das duas pesquisas apontam a relevância da possibilidade de o jovem obter informação e indicação para conquistar uma colocação no mercado. Essa possibilidade se vincula à capacidade de o indivíduo estabelecer redes de contatos e de amizade. Vale ressaltar que na maior parte das vezes a colocação dos jovens em postos que demandam força de trabalho qualificada se dá por meio da indicação de conhecidos. Os jovens empregados por meio de indicação relataram que, quando desempregados, lançaram mão de estratégias impessoais para procurar emprego, por exemplo: preenchendo formulários, entregando currículos, conversando diretamente com o empregador. Nessas ocasiões eles informaram as suas capacidades técnicas, porém foram rejeitados. Em contraste, nas situações em que foram indicados por conhecidos, as competências técnicas parecem ter sido mais valorizadas. Isso conduz à hipótese de que a indicação de um conhecido parece influenciar na avaliação do empregador sobre a competência técnica do candidato. Nessas situações, o investimento na qualificação pode não ser suficiente para conseguir uma colação.

A análise dos resultados das duas pesquisas assinalam a relevância de os jovens, principalmente os de baixa renda, terem acesso a programas que lhes possibilitem o desenvolvimento das competências subjetivas. Outro aspecto fundamental é a organização de sistemas que os favoreça ultrapassar os estreitos limites de seus contatos sociais, obter informação sobre oportunidades e participar de processos seletivos de forma mais democrática, sem a necessidade de depender de amigos com poder para influenciar na contratação. Esse parece ser o papel a ser desempenhado pelos centros públicos de emprego, onde os candidatos podem oferecer-se a postos para os quais estão qualificados. Uma das vantagens desses centros é o estudo das competências atualmente demandadas pelos empregadores e a qualificação dos candidatos em geral. Com isso, é possível elaborar programas voltados para o aprimoramento da força de trabalho dos candidatos. Uma outra vantagem é a de oferecer canais de informação para trabalhadores que não participam de redes influentes, sobretudo em virtude do modo frágil de inserção social.
Referências Bibliográficas

DEGENNE, Alain, FOURNIER, Irène, MARRY e MOUNIER, Lise. “Les relations sociales au coeur du marché du travail” Societés Contemporaines, n° 5, março, 1991, p. 75-97.
DUBAR, Claude. “A sociologia do trabalho frente à qualificação e à competência” Educação e Sociedade, ano XIX, n◦64, setembro, 1998, 87-103.
FERREIRA, Maria Inês Caetano. Trajetórias urbanas de moradores de uma favela num distrito de elite da Capital paulista. 2003, Tese (Doutorado em Sociologia), USP, São Paulo.
____. Redes Sociais, Jovens e Mercado de Trabalho na Região Metropolitana de São Paulo. Centro de Estudos da Metrópole (CEM)/CEBRAP/FAPESP, relatório final de pesquisa de pós-dotouramento, 2005.
SORJ, Bila. “Sociologia e trabalho: mutações, encontros e desencontros. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol.15, n◦43, junho de 2000, 26-44.

Última atualização em Qui, 12 de Janeiro de 2012 15:14
 

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