Juventude, Trabalho e Educação
Ensino médio noturno é um problema? PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Qua, 14 de Setembro de 2011 12:14

Nas décadas de 1980 e 1990, a oferta do ensino médio no período noturno foi uma das principais estratégias para garantir o acesso de jovens e adultos das camadas populares a este nível de ensino. Hoje, as estatísticas demonstram mudanças.

Por Marcelo Morais e Janaína Neres
Do Blog Tô no Rumo


Nas décadas de 1980 e 1990, a oferta do ensino médio no período noturno foi uma das principais estratégias para garantir o acesso de adolescentes, jovens e adultos das camadas populares a este nível de ensino. Atualmente, as estatísticas educacionais demonstram mudanças.

O ensino médio noturno já não é responsável pela maioria das matrículas do ensino médio. Adolescentes e jovens brasileiros estão majoritariamente matriculados no período diurno, mas estamos longe da possibilidade de extinguir a oferta de vagas no noturno. Esta é a opinião de Ana Paula Corti, professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP).

A socióloga e doutoranda da Faculdade de Educação da USP, ela concedeu entrevista ao Tô no Rumo e mostrou-se temerária a propostas de extinção do ensino médio noturno. Em sua opinião, fechar escolas à noite pode por em risco os direitos educativos de moças e rapazes brasileiros que conciliam estudo e trabalho.

Tô no Rumo – O que você acha do ensino médio noturno? Por que o ensino médio noturno é um problema?

Ana Paula – O ensino médio noturno sempre teve como característica seu público, formado por alunos trabalhadores. Inclusive essa foi, talvez, uma das razões para sua existência: garantir os direitos educativos daqueles que já estão no mercado de trabalho. Ou seja, há uma relação grande do ensino médio noturno com a perspectiva de direito à educação dos trabalhadores, sejam eles jovens ou adultos, que podem, ou não, ter abandonado os estudos e queiram voltar a estudar. No Brasil, na medida em que a rede de ensino foi sendo estruturada, essa foi uma grande reivindicação dos grupos populares que ainda não tinham acesso à educação. Boa parte da juventude que chegou a etapa final da educação básica fez isso pela porta do ensino médio noturno e, se não fosse assim, ela não teria estudado, porque tem grandes necessidades de trabalho e de geração de renda. Isso gerou um padrão de expansão do ensino médio em que os cursos noturnos tinham uma relevância muito grande. Os cursos noturnos na década de 1980 eram responsáveis pela maior parte das matrículas de ensino médio no Brasil e essa realidade foi se alterando ao longo das últimas duas décadas. Atualmente, há uma diminuição cada vez mais significativa de matrículas no ensino médio noturno de forma que hoje você tem exatamente o oposto da realidade verificada na década de 1980: a maioria das matrículas do ensino médio é no período diurno.

Tô no Rumo – Por que no conjunto, as matrículas de ensino médio noturno já não são tão expressivas? O que mudou da década de 1980 para hoje?

Ana Paula – Isso é algo a ser investigado. Alguns dizem que essa mudança é uma tendência, resultante das políticas educacionais que tornaram a escola uma instituição cada vez mais acessível à população brasileira. Nessa perspectiva, a diminuição das matrículas noturnas estaria relacionada ao fato de que meninos e meninas estão chegando cada vez mais cedo ao sistema educacional e, esse fator, somado às políticas de correção de fluxo, de progressão continuada e dos ciclos, seria responsável por uma mudança na trajetória dos jovens pobres. Diferentemente de outros períodos, moças e rapazes conseguiriam hoje terminar a educação básica antes de entrar no mercado de trabalho. De fato, isso pode ser um elemento para compreender a realidade. Mas, por outro lado, existem indícios de que as políticas educacionais dos estados também teriam induzido a diminuição dos cursos noturnos e há várias maneiras de fazer isso. Uma delas é empurrar os jovens em defasagem idade/série para os cursos supletivos, para as turmas de educação de jovens e adultos.

Tô no Rumo – Mas não é melhor acabar com o ensino médio noturno? Ele não é de péssima qualidade? Os alunos chegam cansados do trabalho, os professores já estão na terceira jornada de aulas...

Ana Paula – Quando comparados à população do período diurno, nós observamos um perfil diferenciado de estudantes no noturno. Em linhas gerais, encontramos um aluno trabalhador e que tem muito menos tempo para estudar. Ele chega cansado à escola, muitas vezes, com fome, e encontra uma escola com péssimas condições de infraestrutura e com professores cumprindo uma jornada de trabalho extenuante. Por esses e outros fatores, o ensino médio noturno enfrenta mais desafios e dificuldades para fazer com que a população escolar que ali está possa aprender com a qualidade que tem direito. No entanto, estes jovens não teriam acesso à escola sem a existência de ensino médio noturno e, por isso, escolas abertas neste período cumprem um papel importante. O que deveria ser pensado para o ensino médio noturno é um projeto pedagógico e uma escola compatível com essa população que tem maior chance de evasão e de reprovação. Isso deveria suscitar uma política educacional, o que não acontece hoje. Na minha avaliação, o problema da qualidade do ensino médio não é a oferta de matrículas no noturno. O problema da qualidade foi a sua inacreditável expansão nos anos 1990 com baixo investimento. Este é o problema da qualidade! As matrículas foram feitas sem investimento em infraestrutura, em professores e sem pensar a construção de uma política pública adequada.

Tô no Rumo – Não há políticas específicas para o ensino médio noturno? Por quê?

Ana Paula – Nos últimos anos, tanto nas políticas da década de 1990 quanto nas de 2000, não houve ações específicas ou programas para o ensino médio noturno. Muito pelo contrário, de maneira geral, houve uma convergência das políticas em defesa de que as matrículas do ensino médio sejam no período diurno e, mais recentemente, de preferência integral. Esta convergência está se traduzindo numa estratégia específica do Plano Nacional de Educação 2011-2020, que prevê que 50% das matrículas de educação básica – e o ensino médio faz parte disso – sejam em tempo integral. O que a gente vê é que o ensino médio noturno não vem sendo objeto de atenção, de reflexão e de cuidado e isso pode fragilizar o direito à educação de parcela da população juvenil que precisa trabalhar, que precisa conciliar a escola com trabalho. Essa população continua tendo que acessar o ensino médio noturno e eu considero que essa é uma lacuna das atuais políticas educacionais.

Tô no Rumo – Mas há propostas de mudança do PNE que indicam a diminuição e até extinsão do ensino médio noturno. Como é que você vê isso?

Ana Paula – Tem muita gente que quer acabar com o ensino médio noturno desde a década de 1990. Esses intelectuais defendem um sistema educacional mais parecido com aquele existente nos países europeus e em muitas experiências latino-americanas em que a oferta de ensino básico noturno é pouco comum. Mas a questão é: qual á realidade brasileira? Qual a realidade do trabalho brasileiro? Ainda estamos lutando para erradicar o trabalho infantil! Existe hoje uma legislação que proíbe o trabalho para adolescentes menores de 16 anos, mas sabemos que os brasileiros ingressam no mercado de trabalho cedo, na maior parte das vezes a partir do trabalho informal e pouco regulamentado. A nossa realidade é de jovens que trabalham. Eles não são exclusivamente estudantes. Essa característica brasileira se traduz na organização do sistema de ensino. Eu acho temerário defender a extinção dos cursos noturnos num contexto como o nosso. Isso pode acarretar a exclusão de uma parcela de jovens do direito ao ensino médio.

Tô no Rumo – Caso o ensino médio extinguisse o ensino médio noturno, quais as consequências?


Ana Paula É possível que exista um acirramento de dificuldades em regiões que já são marcadas por problemas de acesso e permanência de jovens no ensino médio. É importante considerar que um número significativo de municípios brasileiros sequer conta com escolas de ensino médio. Os adolescentes e jovens destas regiões precisam se deslocar de uma cidade para outra, via e regra, em transportes coletivos precários. Extinguir o ensino médio noturno pode acarretar num aprofundamento da baixa cobertura do ensino médio brasileiro. Muitos desses jovens que trabalham estariam excluídos da escola porque não deixariam de trabalhar. Alguém dúvida que quem precisa se alimentar, se sustentar e ajudar a família vai parar de trabalhar para ir à escola?

Última atualização em Seg, 21 de Novembro de 2011 23:26
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar