N° 03 - Juventude, Raça e Políticas Públicas PDF Imprimir E-mail
Qua, 28 de Fevereiro de 2007 21:00

De acordo com dados do Governo Federal, 25 universidades adotaram estratégias que visam incluir segmentos pouco presentes no ensino superior: negros, índios, pobres e estudantes de escolas públicas. Trata-se de experiências de ações afirmativas, que assumem características bastante peculiares em cada uma dessas instituições.

A faceta mais polêmica das ações afirmativas, no entanto, tem sido a reserva de cotas para negros e negras. Desde a iniciativa inaugural, no Rio de Janeiro, acadêmicos, pesquisadores e ativistas dividem a arena entre aqueles que defendem ou repudiam este tipo de política. Para os primeiros, a implementação das ações afirmativas para negros, sendo as cotas uma delas, é prova de que o governo reconhece a existência do racismo e que ele é parte integrante dos mecanismos de perpetuação da iniqüidade social. Para os segundos, as ações afirmativas podem “racializar” ainda mais a sociedade brasileira, contribuindo para a polarização “branco x negro” e ressuscitando e reforçando discriminações.

Pouco se tem dito sobre o fato de que as políticas de cotas têm beneficiado sobretudo segmentos jovens da nossa sociedade. E, considerando dados e estatísticas sobre suas vidas, se comparados aos brancos da mesma faixa etária, é inquestionável a existência de assimetrias de poder e desigualdades de acesso a direitos básicos, inclusive o de educação. Nesse sentido, consideramos que as ações afirmativas, inclusive as cotas, são mecanismos importantes e necessários para a superação das desigualdades.

Cremos, no entanto, que tais estratégias devem ser emergenciais, com duração determinada, para superar desigualdades históricas que afetam, ainda hoje, as novas gerações de jovens negros. A perspectiva que deve prevalecer é a dos direitos, em especial aquele que garante, a todos os jovens, as reais oportunidades de educar-se em níveis cada vez mais avançados, o que inclui o ensino superior.

Posicionar-se favoravelmente às ações afirmativas, inclusive às cotas, não impede, entretanto, a afirmação da necessidade de um intenso debate e acompanhamento das políticas desenvolvidas. É, inclusive, imperativo que mais jovens possam se informar e se posicionar sobre a temática. Na Pesquisa Juventude Brasileira e Democracia (Pólis/Ibase, 2005) chamou a atenção o fato de que tais iniciativas são desconhecidas pela maioria dos jovens. Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, dos 1.400 entrevistados, 95,3% não souberam informar o que eram cotas. Entre esses, cabe destacar a desinformação daqueles que se declararam pardos e negros: respectivamente 1,4% e 1,8% souberam responder corretamente a questão.

Posicionamentos e participação nas decisões políticas necessitam de acesso à informação. Por isso, é importante que se aponte o desequilíbrio da cobertura da imprensa sobre a questão, que ora produz editoriais bastante tendenciosos sobre as cotas, majoritariamente contrários, ora silenciam. Com esse boletim, apresentamos reflexões de diferentes segmentos envolvidos no debate: pesquisadores favoráveis e contrários, liderança de movimentos juvenis e jovens beneficiários das cotas. Por fim, apresentamos um quadro contendo os argumentos favoráveis e contrários à implementação das ações afirmativas.

Artigo: O que tenho a ver com isso? Uma perspectiva juvenil sobre as ações afirmativas

Entrevistas: Peter Fry e Antônio Sérgio Guimarães falam sobre ações afirmativas

Jovens que se beneficiaram das cotas fazem relato de suas experiências

Lei 10.639 incentiva experiências de professores da rede pública


Veja os argumentos mais comuns em defesa e contrários às cotas