Exploração do corpo e do sexo aumenta no cenário da globalização PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Ter, 18 de Setembro de 2007 14:31

Sílvia Camurça, secretária executiva da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB),  destaca que o ambiente cultural do neoliberalismo estimula que tudo seja transformado em mercadoria, e enfatiza a questão da publicidade na mercantilização da imagem do feminino

Qual a visão da AMB acerca do combate ao tráfico de mulheres e a exploração sexual?
Boa parte do movimento tem chamado a atenção para o fato de que o aumento do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual é tomado como motivo para justificar as políticas de controle de fronteiras nos países ricos, que em geral tem sido cada vez mais violentas e preconceituosas. Então, é preciso ter cuidado para não se associar a setores conservadores das nações ricas que querem evitar os movimentos migratórios dos países pobres. De outro lado, há a questão das liberdades individuais. Os setores mais liberais sempre colocam o cuidado para que não se dê nenhum tipo de invasão sobre as liberdades individuais. Neste sentido, há algumas vozes feministas que se levantam para dizer que muitas mulheres decidem-se pela prostituição como meio de vida por livre vontade, como no caso das garotas de programa. Bom, há quem responda que não há nenhum tipo de ingerência sobre as liberdades individuais quando falamos de combate à exploração sexual, porque o que tem de ser combatido é todo um sistema de dominação, que se assenta sobre o padrão patriarcal de dominação do sexo e de classe. A violência deste padrão de dominação pode ser facilmente demonstrada. Não é preciso teorizar muito sobre isso. Ninguém quer, ninguém deseja que seus filhos e filhas caiam na prostituição.

Vamos falar, então, dos consensos: como os movimentos de mulheres avaliam a questão da exploração sexual e de sua relação com o tráfico de pessoas?
Acho que há um consenso no movimento de mulheres de que a exploração do corpo e do sexo aumenta neste contexto de globalização. Este ambiente cultural do neoliberalismo estimula que tudo seja transformado em mercadoria. A questão da publicidade é fundamental neste processo, com a mercantilização da imagem do feminino. Isso tudo é uma indústria fantástica. Some-se a isso a miséria crescente pelo mundo afora e aí vemos acontecer também um deslocamento das redes de prostituição, da Ásia para a América Latina. Não que as redes se transfiram, mas se expandem de um lugar para outro.

Nesta perspectiva de que o aprofundamento da exploração sexual e do tráfico associado a ela é uma questão internacional, como combater o problema?
Cada país tem os seus projetos e modelos de combate à exploração sexual, alguns caminhando pela via da legalização, mas para tratar a questão internacionalmente é preciso ir mais adiante. Do ponto de vista econômico, tem de haver todo um direcionamento das políticas de turismo. Há redes imensas ligadas ao turismo sexual: agências de viagens, casas de show, empresas de locação de ônibus, motoristas de táxi... E, claro, os homens que viajam pelo mundo à procura destes centros de prostituição. Para combater estas redes, é preciso uma articulação mais estreita entre políticas econômicas, de segurança pública e de turismo. A questão passa também pelas cortes internacionais de direitos humanos. E aí o tema tem de ser trabalhado junto com outros dois: o tráfico de pessoas para o trabalho escravo e o tráfico para o comércio de órgãos. Estes três tipos de tráfico estão encadeados em sistemas muito próximos uns dos outros.

Qual a posição da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) sobre uma possível legalização da prostituição?
Na AMB, há posições distintas. Em vários estados, há Associações de Prostitutas que fazem parte das redes de movimentos que se engajam à AMB, algumas a favor, outras não. Algumas consideram que uma regulamentação dará sustentação, estabilidade. Outras acreditam que não. Mas o que fica bem claro, independentemente da posição sobre legalizar ou não, é que não há divergências nos movimentos de mulheres sobre se existe ou não exploração da mulher nos contextos de prostituição. O que sim existe é divergência sobre como se trata e se combate isso.

Há algum debate específico sobre o projeto de regulamentação apresentado pelo deputado Fernando Gabeira?
Mesmo os setores mais liberais mostram-se contrários ao projeto apresentado pelo Gabeira porque avaliam que o projeto legaliza a casa de prostituição, mas não protege a prostituta da exploração. Estes setores brigam, sim, por uma legislação que proteja a mulher que se encontra em situação de prostituição.

 

Última atualização em Ter, 24 de Janeiro de 2012 16:06