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Tráfico de Mulheres e Crianças no Brasil PDF Imprimir E-mail
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Qui, 14 de Abril de 2005 21:00

Por Priscila Siqueira

A primeira grande medida tomada pelo novo Governo do Brasil, poucos dias após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia primeiro de janeiro de 2003, foi decretar uma guerra sem tréguas à prostituição infantil no País.

Apesar do Brasil ser a décima quinta potência econômica do planeta e ser um país com inúmeras possibilidades de desenvolvimento, a má distribuição de riqueza faz com que dos 180 milhões de brasileiros, 52 milhões vivam "abaixo da linha da pobreza", isto é, recebem um ou menos de um dólar por dia. E deste contingente de miseráveis, maior que a população da Itália, 70% é constituído por mulheres e seus filhos abaixo de 14 anos. Essas criaturas nada mais têm a vender para poderem sobreviver, além de seus próprios corpos...

Reforça essa miséria material na exploração de mulheres e crianças a cultura patriarcal e machista da sociedade brasileira. Com grande influência na maneira de pensar judaico-cristã, de que o pecado entrou na História através de Eva e, portanto, a mulher pode e deve ser penalizada, os crimes e agressões contra o gênero feminino são mais tolerados em nossa sociedade. Daí, talvez, se explicar a indiferença com que a sociedade e os governantes passados terem demonstrado em relação à exploração comercial e sexual e o tráfico de mulheres e crianças.

Em junho de 2002 o Centro de Estudos, Referência e Ações sobre Crianças e Adolescentes - CECRIA, uma ONG ligada à Universidade de Brasília, apresentou o resultado de pesquisa sobre o tráfico de mulheres, crianças e adolescentes para fins de exploração comercial e sexual no Brasil. A pesquisa, que teve financiamento do exterior e parceria com outras entidades que lidam com a questão, se apresenta como o primeiro passo objetivo de mapear este terrível comércio. Mostrou, com dados obtidos em denúncias feitas nas Delegacias de Polícia, o que a prática já mostrava como realidade: há no Brasil um intenso tráfico interno e externo de meninas e mulheres. Foram mapeadas mais de cem rotas de tráfico que levam as mulheres e crianças das regiões mais pobres do país para os grandes centros urbanos. É o que acontece, por exemplo, nas regiões interioranas dos estados do Nordeste, onde adolescentes e jovens mulheres vão para as capitais litorâneas nas quais o turismo sexual com clientes europeus é uma prática até agora aceita pelas autoridades. Há também o fluxo intenso de meninas e mulheres de todas as regiões do Brasil para a cidade de São Paulo - a maior metrópole da América do Sul.

Escândalo não menos cruel é o tráfico dessas criaturas para o exterior. O Brasil é considerado o maior "exportador" de crianças e mulheres das Américas para fins de exploração comercial e sexual. Um dos destinos das brasileiras é a Espanha. O Itamarati, representante do Governo Brasileiro no exterior, admitiu em 2001, haver cerca de 20 mil brasileiras se prostituindo na Espanha, sendo 10 mil somente na cidade de Bilbao. Mas as mulheres e adolescentes também são encaminhadas para a Grécia, Itália, Suíça Israel, Estados Unidos e Japão. A "mercadoria" apreciada neste comércio é a "mulata" brasileira, com seus quadris avantajados.

Testemunhos de poucas brasileiras, resgatadas deste comércio encabeçado pelas máfias israelense e russa, mostram como esse tipo de escravidão se processa. É o caso de Simone Borges Felipe, de 23 anos, que foi para a Europa pensando ser baby-sitter e depois de três meses de sua partida, a família recebeu seu corpo em um caixão lacrado com a informação de que a moça havia morrido de tuberculose... Suas companheiras ,que conseguiram escapar do bordel em Bilbao para onde foram levadas, contam que seus documentos lhes foram retidos assim como qualquer dinheiro, tendo sido obrigadas a se drogar. O bordel funcionava na parte de baixo do edifício e elas - totalmente vigiadas- permaneciam na parte de cima, em regime de escravidão. Simone morreu, segundo suas companheiras, de overdose.

As medidas tomadas pelo atual Governo do Brasil reacendem as esperanças de um Brasil mais justo e igualitário. É preciso que as resoluções como as do Protocolo de Palermo, do qual o país é signatário, não fiquem somente no papel. Sem dúvida, somente com a implantação de políticas públicas femininas, de proteção à infância, com a melhoria das desigualdades sociais, veremos o fim, em nosso país, do maior escândalo desse mundo globalizado, que é a exploração e venda de corpos de crianças e mulheres.


Artigo publicado originalmente no site Serviço à Mulher Marginalizada (SMM).

 

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