Ação em Rede
Mumbai 2004: O Mais Popular De Todos Os Fóruns PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Seg, 08 de Março de 2004 21:00
Um fórum popular, em que mais de 30 mil dos participantes eram dalits - os mais pobres de uma sociedade empobrecida -, que não devem sequer ser tocados, porque são excluídos até do rígido sistema de castas. Sinteticamente, assim poderia ser descrito o Fórum Social Mundial 2004, na Índia. Em Mumbai, o local que abrigou as atividades, a cidade mais desenvolvida da Índia, com 14 milhões de habitantes, a pobreza está em toda a parte: nas ruas, nas pessoas, nas residências.

O deslocamento do FSM para a Índia literalmente deu uma "nova cara" ao evento, concentrando a diversidade cultural asiática em Mumbai. Entre as 80 mil pessoas, de 132 países, que lá estiveram, cerca de 700 eram japoneses, 500 sul-coreanos, além de chineses, tailandeses e filipinos. Se nas edições anteriores o Fórum falava português, inglês, espanhol e francês, este ano, treze foram as línguas oficiais: - hindi, marathi, tamil, telugu, bengali, malayalam, espanhol, inglês, francês, coreano, bahasa indonesia, tailandês e japonês.

As condições das instalações eram precárias em função dos reduzidos recursos utilizados. Alugou-se um grande espaço cercado, onde havia uma antiga fábrica, que recebeu divisórias de madeira e algodão cru, com chão de terra e cadeiras de plástico. A tradução simultânea - feita por 180 intérpretes e tradutores da Argentina, do Brasil, da Índia, dos Estados Unidos, da França, da Espanha, do Reino Unido, da Bélgica, da Suíça, do Sri Lanka, da Tailândia, da Indonésia, do Japão, da Coréia e da Palestina - ocorreu apenas em grandes painéis, realizados nos espaços fechados com madeira, que tinham chão de cimento rústico.

O Fórum aconteceu dentro, mas também - e talvez muito mais - fora, dos espaços físicos destinados para tal. Mantendo a tradição indiana, as pessoas marchavam o tempo todo, marchavam por todas as partes, numa forma de participação popular, com palavras de ordem, com faixas para serem exibidas e assinadas, carregando instrumentos de trabalho, velas, flores. E marchavam crianças, mulheres, camponeses, portadores de necessidades especiais. Foi um espetáculo à parte.

Os impactos da guerra


A guerra esteve no centro dos debates

crédito: Sérgio Haddad


Os principais debates estavam diretamente voltados ao tema da guerra e da paz, da violência dos Estados Unidos contra o Afeganistão e o Iraque. Mas a abordagem era totalmente diferente, o que nos fez perceber como estamos isolados em nossa visão ocidental. Para os povos orientais, a guerra teve um impacto muito maior, porque aconteceu ao seu lado. É imaginar como teria sido, para nós, se a invasão norte-americana tivesse acontecido na Argentina.

Em relação às suas três edições anteriores, este FSM foi muito mais popular, com intensa participação dos movimentos populares, dos movimentos de base. Também foi maior a diversidade: de pessoas, nacionalidades, cores, vestimentas, comportamento e formas de expressão - além das marchas, havia manifestações culturais nas ruas com grupos de dança, teatro, gente pintando, fazendo discurso, falando com o corpo.

Tudo isso reflete a forma mais participativa com que o FSM foi construído na Índia. Primeiramente, constitui-se um grande comitê asiático; depois, um comitê indiano amplo e, finalmente, um comitê organizador. Essa estrutura contemplou a diversidade de posições políticas e de organizações, mantendo o diálogo entre todas as forças sociais, o que implicou participação equilibrada, presença pública revesada e múltiplos mecanismos para contemplar posições diversas.

Mumbai concentrou a diversidade cultural asiática

crédito: Sérgio Haddad

Caldeirão de diferenças

Sobre a precariedade da estrutura, é preciso dizer que ela foi contornada com muita simplicidade e criatividade, constituindo diversos ambientes, entre toras de madeira e tecidos coloridos, onde foram desenvolvidas as atividades auto gestionadas. A deficiência na tradução, que fez do inglês a língua quase predominante, ao lado do hindi, foi o principal problema por contrariar um dos princípios do FSM, que considera a manifestação dos participantes no seu próprio idioma também como uma forma de respeito à diversidade e expressão dela.

O fato de todas as atividades terem sido concentradas num único local permitiu a convivência num verdadeiro "caldeirão de diferenças". Perdeu a cidade, que não pôde conviver com o FSM, como ocorre em Porto Alegre (RS).

O Fórum na Índia confirmou a sensação em Porto Alegre de que o evento se faz muito mais por pequenos painéis, oficinas, debates nos corredores com os participantes sentados no chão, pela troca de experiências entre os participantes e pelas atividades auto-gestionadas. Em Mumbai, mais que em Porto Alegre, as grandes conferências, protagonizadas por intelectuais e lideranças internacionalmente reconhecidos, foram pouco participativas, embora algumas tivessem estimulado debates interessantes.

Do ponto de vista da repercussão, o fato de não ter ocorrido simultaneamente ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, impossibilitou os contrapontos entre os dois eventos, tão intensamente explorados pela mídia mundial nas edições passadas, reduzindo assim seu impacto internacional.

Depois de Mumbai, Porto Alegre não poderá refazer o mesmo - esta é a sensação dos que participaram ou acompanharam de longe esta quarta edição do FSM. Temos que avançar em novas propostas que superem os limites apresentados anteriormente e que incorporem as novidades do FSM indiano.

Estratégias de ação do FSM


Nesse sentido, há quase um clamor pela busca de indicativos, no contexto do FSM, sobre os temas mais convergentes e suas estratégias de ação. De um lado, o grande problema talvez seja como realizar tal proposta conforme o espírito da carta de princípios e o método FSM, buscando evitar a tendência freqüente de que alguns "iluminados" digam para as maiorias o que se deve fazer como estratégia de luta.

Mantendo a tradição indiana, os participantes marcharam durante todo o evento

crédito: Sérgio Haddad

Por outro lado, tais convergências permitiram um bom acompanhamento das temáticas indicadas pelos participantes do FSM, de suas estratégias de influência e transformação entre um fórum e outro. Com isso, haveria um reforço da idéia do FSM como processo, contrapondo-se à do FSM apenas como um evento.

A busca das convergências não implica desconsiderar as divergências, ou mesmo aquilo que se produz de novo no contexto do FSM, que ainda não ganhou relevância. E aqui se coloca um outro desafio: como dar expressão ao novo?

Há ainda grande pressão por parte de um grupo considerável de instituições no sentido de mudar a periodicidade do evento global do FSM para o intervalo de dois anos. Alguns argumentam que não há fôlego para realizá-lo todos os anos, que não há recursos disponíveis, e, por isso, os movimentos sociais de base terminam por ter poucas condições de participação em relação a ONGs e sindicatos. Outros argumentam que é preciso ter mais tempo para o trabalho político de base, na luta cotidiana por mudar a sociedade. Os que apóiam a manutenção da periodicidade anual o fazem argumentando que seria um sinal de fracasso diante do Fórum Econômico de Davos, que há muitos anos mantém sua periodicidade.

No entanto, a periodicidade do evento mundial depende de outros fatores, tais como o apoio ao deslocamento dos movimentos e dos atores de países mais pobres; o tipo de fórum centralizado; o que se realiza entre uma edição e outra. Assim, a periodicidade deve ser considerada no contexto do FSM como processo, considerando todas as variáveis.

Enfim, há que se definir o local do próximo FSM depois de 2005 em Porto Alegre. Há intensa vontade política para que seja na África, mas as condições para a sua realização ainda não foram confirmadas.

* Sérgio Haddad é secretário-executivo da Ação Educativa e diretor de relações internacionais da Associação Brasileira de ONGs (Abong).


 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar