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Virada Cultural movimenta São Paulo neste fim de semana PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Sex, 14 de Maio de 2010 14:26

Conheça a programação da cultura de periferia do evento, que fica longe dos holofotes

 

Os dias 15 e 16 de maio estão marcados nos calendários de muitos paulistanos, que vão acompanhar uma das inúmeras atrações da sexta edição da Virada Cultural. Na noite de sábado para domingo, não haverá Lei do Psiu que breque a efervescência cultural pelas ruas da metrópole. Desde 2005, a cidade de São Paulo se inspira em Paris e promove a sua versão da Nuit Blanche, evento francês que movimenta as ruas da capital com manifestações culturais madrugada adentro. Comparações à parte, a versão brasileira da coisa tem seu charme: pelo sexto ano seguido, a Virada Cultural leva milhões de cidadãos, paulistanos ou não, aos palcos espalhados pela cidade.

Este ano, o evento ficou maior, principalmente em relação às manifestações de cinema e teatro. A cultura nerd ganhou seu lugar na Praça Roosevelt e a tribo do body modification (tatuagem e piercing) tem vez na Galeria Prestes Maia. A cultura de periferia ganhou mais espaço, mas os grandes destaques – em termos de divulgação e de ocupação dos principais palcos do evento – continuam sendo dos artistas internacionais. Na periferia, a Virada também agita o fim de semana.

Maior e mais rica

Nesse ano, a Virada sofreu uma reconfiguração espacial; o evento está maior e há uma maior concentração de atrações no Centro Velho e na região da Luz. A Praça Júlio Prestes recebe o palco principal com alguns artistas internacionais. Logo ao lado, a Estação da Luz é palco para orquestras, danças, desfiles e o interessante projeto Trem das Onze, no qual um trem da CPTM fará sucessivas viagens da Estação da Luz até o Braz com atrações durante o trajeto.

Outra mudança para 2010 diz respeito aos valores envolvidos na produção do grande evento. Ano passado, a Prefeitura desembolsou R$ 5,5 milhões e este ano, foram R$ 8 milhões. O valor, que teve acréscimo de cerca de 50% em relação a 2009, foi investido com infraestrutura e pagamento de cachês aos artistas. O valor propiciou a presença de grandes músicos do cenário mundial, como Barbarito Torres e Ignacio Mazacote, cubanos que participaram do ótimo documentário Buena Vista Social Club, a banda de apoio de Janis Joplin e os The Temptations (se você não ligou o nome à música, a banda norte americana foi a responsável pela melodia My Girl, do filme Meu Primeiro Amor, um dos primeiros sucessos do ator Macaulay Culkin).

Internacional principal, nacional marginal?

O grande diferencial, porém, é o fato de as bandas internacionais ocuparem o palco principal, enquanto músicos brasileiros são deixados nos palcos mais escondidos. “Na Virada de 2010 em especial, tem se dado muita atenção aos grupos internacionais, enquanto músicos daqui são deixados nos palcos menos importantes. E, musicalmente falando, nós não devemos em nada para eles”, analisa o artista Wesley Nóog. O cantor se apresentará no Palco do Eu Sozinho, localizado no Pátio do Colégio.

Wesley, cujo show está marcado para as 2h30 da manhã, é um artista pouco conhecido pelo grande público, pois decidiu se desvincular da indústria cultural. Segundo ele, seu som é inspirado em Tim Maia, Ed Motta e Luiz Melodia. Seu trabalho chama a atenção por um outro aspecto: o CD Mameluco Afro Brasileiro foi disponibilizado gratuitamente na internet e teve mais de um milhão de downloads. “O trabalho veio preencher uma lacuna que a indústria musical trouxe, ou seja, de produtos descartáveis, não artísticos que incentivem a reflexão. Meu CD busca exatamente isso: a reflexão sobre a diversidade do povo brasileiro; e talvez por isso o público tenha aceito tão bem”, exalta o cantor.  

Wesley divide o palco com outros artistas brasileiros, como Nô Stopa, Kiko Zambianchi, Edvaldo Santana e Tião Carvalho; este último, conhecido pela difusão do tambor de crioulo e boi do Maranhão em São Paulo.

Uma outra Virada

Uma outra virada não se trata da Virada Paulista, réplica do evento que o governo estadual aplica em 20 cidades do interior paulista. Essa outra Virada acontece no município de São Paulo também, mas não no centro – e, sim, nas periferias.  Por vezes dentro do calendário oficial, por outras não, a periferia assumiu um compromisso com seus moradores e artistas e trouxe muito de sua manifestação cultural em eventos organizados por eles próprios.

Para Nóog, essa Virada tem uma riqueza maior do que a apresentada no Centro. “Desde a década de 70, a periferia é nicho de grandes artistas, como Tim Maia, Cartola e Grande Otelo. E, a partir da década de 90, a periferia passou a produzir e consumir suas próprias manifestações culturais, tirando o holofote do Centro”, analisa o cantor.

A ideia da Virada Cultural é um forte argumento no projeto de revitalização do Centro, ou seja, levar a população ao centro da cidade e transformar a região num pólo de concentração artístico-cultural. Esse ano, no entanto, está no calendário oficial a participação dos CEUs e de onze unidades do SESC, ou seja, nas regiões periféricas da metrópole. A participação, no entanto, fica aquém da produção nas periferias.  

Sérgio Vaz, poeta e fundador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), reclama da atuação da Prefeitura, que não dá a devida atenção a manifestações populares, como a literatura e poesia nas periferias. “Hoje, em São Paulo, são mais de 80 saraus acontecendo na cidade e a Prefeitura não nos convidou para o evento. Aí, a gente para e pensa: ou a gente reclama ou a gente faz. E a gente resolveu fazer nossa própria virada e prestigiar o pessoal da quebrada”, conta o poeta.

Sérgio coordena o evento no SESC Santo Amaro, com apoio da Cooperifa. Virando Poesia do Dia para a Noite – Sarau 24 horas tenta reunir um pouco dos muitos saraus espalhados pela cidade. Para acompanhar a programação na íntegra, acesse a página oficial do evento.

Esquecido mais uma vez

Outro renegado do evento é o rap. Apesar da reconhecida importância que o Hip Hop tem no Brasil, e sobretudo em São Paulo, as apresentações do gênero ficaram restritas às periferias e diluídas em alguns palcos no centro. Diferente das edições anteriores o Hip Hop ficou sub-representado na Virada de 2010, fato que tem origens em 2007, ano no qual a Praça da Sé se transformou num campo de batalha. Durante a apresentação do maior grupo de rap do Brasil, o Racionais Mc’s, a polícia entrou em confronto com o público gerando cenas de violência que se arrastaram pela madrugada e seguiram até o início da manhã.

O acontecido marcou de uma vez por todas a posição que a organização do evento assumiria perante o Hip Hop. No ano de 2008, um palco foi montado em uma região mais hostil e lá estava um contingente policial bastante ostensivo, muito diferente dos outros palcos. Já em 2009 o Hip Hop foi diluído entre as atrações, com poucas apresentações concentradas nas periferias.

Em 2010 não foi diferente: a ausência de um palco dedicado ao Hip Hop foi alvo de muito questionamento. Na coletiva de imprensa dedicada à apresentação da Virada Cultural, o diretor do evento, José Mauro Gnaspini, justificou essa opção dos organizadores. "(O rap ficou de fora dos grandes palcos) Porque a gente considera que o espaço não é adequado e a gente tem receio de segurança, ou por causa da nossa experiência pregressa", afirma o diretor.
 
Algumas atrações foram destinadas à periferia e outras três ficaram no centro, é o caso de Záfrica Brasil e Instituto, na praça Júlio Prestes, e dos rappers Thaíde e Cabal, na São Bento.

 

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