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Cultura Periférica/Le Monde Diplomatique: A periferia no espelho do cinema nacional PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Seg, 22 de Setembro de 2008 12:14
Leia coluna de Eleilson Leite, no Le Monde Diplomatique, sobre o filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Será que por serem pobres, as pessoas da  periferia estão condenadas à desgraça?
Entrou em cartaz  no último dia 5 o excelente filme  Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas.  Trata-se de mais uma grande contribuição da dupla brasileira de  ao cinema mundial. Obra  de grande vigor   dramático e direção poética. O desempenho dos atores é  formidável  o que rendeu merecida premiação em Cannes para a atriz Sandra Corvelone.  Tudo isso e muito mais já foi exaustivamente observado pela imprensa brasileira que deu  ao Longa  cobertura um tanto exagerada. Quero tratar aqui de um outro aspecto do filme e , por extensão,  às múltiplas produções nacionais  da década atual que tem utilizado a periferia como cenário.

Em Linha de Passe, os diretores  ambientaram uma história de buscas e incertezas de cinco pessoas de uma mesma família num cenário de carência material  e humana agravado pela ausência da figura paterna , uma gravidez se não indesejada, inoportuna para uma mãe  na faixa dos 40 anos que cuida sozinha dos  quatro filhos de pais diferentes. A história se passa durante 6 meses do ano de 2007 e é marcada a todo momento com cenas da torcida corintiana  em seu sofrimento ao ver o Time de Parque São Jorge sucumbir à segunda Divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Não por acaso, a matriarca da família está lá, no meio da  Torcida Gaviões da Fiel testemunhando mais uma derrota do Timão. Uma história assim só poderia se passar na periferia. Será? Seja como for, um bairro do distrito de Cidade Líder, na Zona Leste de São Paulo serviu de cenário para a trama agregando ainda mais realismo à história. E as  doses de realismo são cavalares. Veja como são os personagens.

Cleuza, a mãe, por causa da gravidez é afastada do trabalho de empregada doméstica que é  sua única fonte de renda. Além de ter perdido o marido com quem teve  os três filhos mais velhos, segurou as pontas sozinha do mais novo, omitindo do garoto, Reginaldo ( Kaique de Jesus Santos )  a verdadeira identidade do pai. O caçula porém,  presume que o desconhecido pai é negro e motorista de ônibus.  Inconformado   com a situação ele está sempre  de mau humor em virtude do preconceito de vizinhos e dos próprios irmãos.

Reginaldo vive a andar de ônibus pela Cidade e cria afeição por um motorista negro  que parece ser seu pai. O resto do dia ele fica deitado no sofá da sala vendo TV e pela manhã vai à Escola Municipal  onde se mete em encrencas com os colegas no futebol na hora do recreio. Com as lições que teve com seu  suposto   pai e de tanto observar os condutores, aprendeu a dirigir e numa tarde de um dia sem trânsito, seqüestrou um ônibus e saiu pela Cidade sem destino.

Dario que é interpretado  por Vinícius de Oliveira ( o mesmo de Central do Brasil ) está a alguns dias de completar 18 anos. Seu sonho é se tornar jogador de futebol e vive a aflição de não poder mais se inscrever nas peneiras dos clubes, das quais  participou  inúmeras vezes sem sucesso. No dia em que sua mãe lhe prepara uma festinha surpresa pelo seu indesejado  aniversário,  ele chega tarde porque estava envolvido na adulteração da carteira de identidade e quase estraga a festa. Com o RG  falso ele finalmente consegue ser escolhido num Time, mas a plástica  grosseira do documento foi percebida pelo Treinador que o dispensou.

A última esperança de Dario  era ser contratado pelo Tiradentes, uma espécie de  Time  de Terceira Divisão. O técnico porém , exige R$ 3.000,00  pra ele ingressar na equipe. Com a promessa de conseguir o dinheiro e avalizado por um  conhecido, o técnico aceita colocá-lo no banco de reservas num jogo decisivo. Aos 42 minutos do segundo tempo ele entra. Numa jogada de craque sofre a falta  dentro da área: pênalti. Vem a cobrança e o fim do filme.

Dinho ( José Geraldo Rodrigues ) é evangélico recém-convertido. Esforça-se para manter a nova conduta e foge do assédio dos amigos da Quebrada  os quais passa a rejeitar. Freqüenta o culto de uma pequena Igreja  que sofre a perda de fiéis para uma hiper-igreja instalada  recentemente no Bairro. Trabalha num  Posto de Gasolina e leva uma vida rotineira  do trampo para casa, de casa para a igreja. Certa noite no Posto  ele é assaltado por um motoqueiro que lhe leva o dinheiro que tinha no bolso. Incrédulo, seu patrão escorraça o rapaz e o demite. Dinho num surto incontrolável espanca o patrão. Transtornado sai pela noite bebendo de bar em bar até cair na porta de sua igreja onde é resgatado pelo Pastor.  

Na manhã seguinte, dali mesmo ele pega a caravana para uma sessão de batismo nas águas de uma represa. Completamente introspectivo ele auxilia uma senhora  deficiente física no ritual de iniciação. O Pastor, que já havia tentado uma vez na igreja, pede para esta senhora  andar. Dinho que já não havia acreditado na experiência anterior  vive um momento de crise intensa. Abandona o lugar e sai  caminhando sem rumo, mas com um certo olhar de conquista.

Já o Denis ( João Baldasserini ) é motoboy do tipo vida loka. Vive intensamente a dor e a delícia de ser o que é. Sua  referência de futuro são apenas  as últimas e  intermináveis prestações de sua  motocicleta. Ele tem um filho que não assume. Certa vez, ao visitá-lo, o bebê se assustou com a presença dele. A mãe do bebê, um tanto saudosa dos tempos de namoro é bem paciente com  o pai negligente, mas lhe cobra o dinheiro para os remédios do filho quando Denis lhe convida para uma noite no Motel. Acostumado a ver ações de assaltantes  motoqueiros   no trânsito, Denis resolveu tentar a sorte no ramo. Deu certo. Começou a aparecer dinheiro para o filho, deu uma bolsa para mãe “com tudo dentro”, como diria  Chico Buarque na canção Guri.

Não passou muito tempo o esquema caiu num roubo mal sucedido. O parceiro escorregou da moto e foi atropelado. Ele bateu na lateral de uma Pajero e rolou  por cima do capô do  carro de luxo, ferindo-se sem gravidade. De dentro do veículo saiu um assustado  executivo. Esperto, Denis reverte a situação. Com a mão dentro do bolso da  jaqueta simula uma arma.  Entra no carro e faz o motorista conduzir o veículo até um terreno baldio numa quebrada qualquer. Tomado pelo medo e totalmente entregue, o dono do carro pede a Denis apenas que lhe preserve a vida. O Motoboy exige que o sujeito olhe para ele. O cara olha e desaparece. O motoboy, não se reconhecendo naquela cena, abandona o carro  e todos os bens da vítima e como Dinho, sai andando.

Linha de Passe não têm coadjuvantes. Fica tudo concentrado nesse núcleo, todos protagonistas. A tragédia toma conta das vidas dessas pessoas numa sucessão interminável de  desacertos, desencontros e desgraças. Daniela Thomas  disse que tem muita “empatia com o sofrimento alheio” e procura ter um “olhar por dentro do turbilhão”. Com uma carreira mais ligada ao Teatro, ela consegue manter o foco dramático do filme  dando-lhe  uma intensidade que absorve o espectador na trama. A gente sai do Cinema   transtornado como se tivéssemos vivido o drama.

Walter Salles cujo humanismo é amplamente reconhecido em suas obras, em Linha de Passe faz muitas referências ao seu mestre Wim Wenders,  sobretudo a seu clássico filme Paris, Texas. “Anda” é um mantra que fica exposto no final do filme. Andar é  a forma como o personagem central do citado filme do cineasta alemão encontra para  se reconciliar consigo mesmo.  Deve estar aí a esperança que Salles diz ter seu filme. “Talvez  o filme não expresse isso ao longo da narrativa, mas no final é imbuído e uma certa idéia de que as coisas dêem mais certo do que deram no passado”, declarou o diretor à reportagem da Folha de São Paulo.

Observando o filme como uma crônica social  fico instigado a questionar se essa história poderia acontecer em outro lugar que não fosse um bairro de periferia, desses bem nas bordas da Cidade como é a região onde aconteceram  as filmagens. Igreja evangélica não é privilégio da  Quebrada. A Renascer  tem um templo enorme na Vila Mariana que atrai milhares de jovens de classe média  e tem no jogador de futebol Kaká, um de seus adeptos mais famosos. Família chefiada por mulher tem muito na  perifa, mas com  cinco filhos ( um está para vir ) é cada vez mais raro.

O sonho de se tornar jogador de futebol está na cabeça de pelo mesmo 7 de cada garoto seja ele pobre ou rico. Achar que o  Dario queria se tornar um atleta para  “sair da exclusão” como dizem as resenhas que li  sobre o filme  e os próprios diretores me soa simplista. O cara estava a fim de ser jogador. Ganhar dinheiro, ou não, era outra questão. Ser motoboy , com todas as dificuldades da profissão é uma forma digna de se sustentar. É arriscada, mas tem seu divertimento. Para um jovem, não é  necessariamente algo penoso. Não saber a identidade do pai não é um drama só para gente pobre. A protagonista da novela da Globo  que é ricaça, sequer sabia quem era sua verdadeira mãe. Aliás, nas novelas, dúvidas sobre paternidade recaem mais sobre os ricos do que sobre os pobres.

Não por um acaso, ao ser exibido numa sessão especial para moradores da periferia de São Paulo, estes não se identificaram plenamente com o filme. No evento promovido pelo Jornal A Folha de São Paulo e Unicef que  reuniu 250 pessoas logo após a estréia do filme, os convidados se incomodaram com o “clima de derrota” de Linha de Passe. “São coisas que a gente sempre vê sobre a periferia. Por que não mostrar outros pontos de vista?”, questionou para a reportagem da Folha,  a jovem Karina Ferreira da Cruz de 21 anos que é evangélica.

O fato é que Linha de Passe acaba por contribuir  para estigmatizar a Periferia como o fazem a maior parte dos filmes que desenvolvem suas tramas nas franjas da Metrópole. Será que por serem pobres, as pessoas da  periferia estão condenadas à desgraça? Será que ninguém pode ser feliz mesmo  vivendo num ambiente precário? Será que pobre não ama, não transa,  não se encanta com os filhos, amigos e a comunidade? É incrível, mas nos filmes que tratam da periferia não tem sarau, roda de samba, grafite colorindo os muros. Não tem hip hop. Será que  Antonia, da Tata Amaral  ficará como exceção? Está para vir o filme Bróder do Jeferson De que certamente  mostrará uma periferia com pulsões  de vida. Por outro lado   está em finalização o novo longa de Sergio Bianchi que foi rodado na Brasilândia como Antonia. Quem conhece o trabalho desse importante diretor, pode esperar mais desgraça sobre  a periferia.

Não se trata de  resignação, comodismo ou alienação. Pelo contrário. Na Quebrada o povo está de cabeça erguida, disposta a virar o jogo. As pessoas não querem sair da periferia, mas querem mudar a periferia. E como diz Ghandi, “somos a mudança que queremos”. Não é enfatizando reiteradamente  a tragédia cotidiana  em tons dramáticos que se vai motivar as pessoas. Se isso fazia parte das intenções de Salles e Daniela, a reação do público na referida sessão especial para o Unicef  já deu a resposta. Se foi para discutir a existência humana, o belo filme deu uma grande contribuição.


Eleilson Leite
São Paulo, 19 de Setembro de 2008
Para a Coluna Cultura periférica do  Caderno Brasil do  Lê Monde Diplomatique  

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Última atualização em Seg, 22 de Setembro de 2008 12:23
 

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