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O Ex-Excluído: manifesto de um poeta suburbano PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Ter, 06 de Março de 2012 15:50

Leia a coluna de Antonio Eleílson Leite, coordenador da área de Cultura da Ação Educativa, sobre literatura periférica no blog Outras Palavras. Na edição desta quinzena, Eleíson comenta o livro O Ex-Excluído, do poeta paulistano Germano Gonçalves. Radicado em São Mateus (zona leste), Germano revela uma escrita visceral e urgente. Influenciada por Raul Seixas e Paulo Leminski, sua obra canta a periferia pré-hip hop. Leia a íntegra abaixo:

Por Antonio Eleilson Leite

Germano Gonçalves é um autor do tipo que escreve porque a vida não lhe basta. Dono de uma escrita urgente e visceral, seu texto traduz, palavra por palavra, a vastidão de sua alma suburbana. Nascido em São Caetano, vive há muito tempo na Zona Leste de São Paulo — mais especificamente no berço do samba: São Mateus. O bairro é o cenário principal de sua inspiração poética e razão de ser de O Ex-Excluído, livro que lançou no final de 2011, numa edição independente, impressa sob demanda e, portanto, de circulação restrita, mas que pode ser encontrado no site Clube de Autores.

Periférico das antigas, Germano é pré-hip hop. Seus primeiros textos vieram ao mundo na década de 1980, antes que o RAP roubasse a cena, marcando definitivamente o jeito de se falar e escrever nas periferias paulistanas. Ele é da estirpe do Sergio Vaz, seu contemporâneo do lado sul dos extremos da metrópole, cujos primeiros poemas foram publicados em 1986. Assim como o fundador da Cooperifa, Germano foi muito influenciado pela Música Popular Brasileira, em especial por Raul Seixas, a quem ele faz um tributo em alguns dos textos em prosa que encerram, como apêndice, seu livro de poesia.

O Ex-Excluído é um livro-manifesto. É uma obra autobiográfica. Escrita em primeira pessoa nos textos de prosa e também em várias poesias, o autor discorre sobre fatos e pessoas que lhe são ou foram muito caras. Lendo a obra, o leitor tomará contato com Dona Maria de Lourdes, sua mãe e também com seu irmão (de quem ele não revela o nome), cuja morte precoce e surpreendente é narrada com tamanha emoção que nos afeta no sentimento de dor e perda, embalado por um texto de grande vigor literário.

Germano se desnuda na obra. Ao terminar a leitura, parece que já o conhecemos de longa data. Ele faz uma excelente crônica da periferia. Veterano das quebradas, fala de um tempo em que era comum as rodas em torno da fogueira, a garrafa de vinho Natal passando de mão em mão. No violão, mais uma do Raul. Germano se orgulha de ser um "raulseixista". Teve oportunidade de conhecer o saudoso roqueiro baiano pessoalmente. Tomou uma cachaça com o Maluco Beleza no mesmo apartamento da Rua Frei Caneca onde o cantor foi encontrado morto em agosto de 1989.
Raul Seixas é fundamental na vida de Germano Gonçalves e sua principal influência em termos de visão de mundo e estética. O gosto pelo rock, a inquietação diante das injustiças e uma visão um tanto difusa sobre as desgraças do povo vêm do velho Raul. Outro que foi importante, principalmente na construção poética de Germano, é o também falecido poeta curitibano Paulo Leminski, a quem faz uma ode no belo poema Preito ao Poeta.

Entre os poemas, Germano se dá melhor naqueles mais curtos, diretos, alguns fiéis aos parâmetros da poesia concreta. Assim são: Corre que Corre; Cárcere; Favela; Escrevendo, entre outros. Mas, de todos eles, o melhor é Spray, uma preciosidade. Há hai kais, um soneto, mas principalmente poemas com aquele verso livre ao estilo do Poema Sujo, de Ferreira Gullar. No poema Cárcere, Germano brinda o leitor com os versos: "A minha expressão / Não está na proporção / Do meu Coração". Como bom poeta, Germano é um ser questionador, inconformado. Nas suas palavras: "São fatos consumados / Que os poetas são mal amados / que nenhum se casa / Com a primeira namorada".

Germano está perto de fazer 50 anos. É portanto, como já notado, anterior ao hip hop. Embora fiel ao rock and roll, o autor rende muitas homenagens ao gênero criado pelo DJ estadunidense Afrika Bambaata. Numa dessas, faz um poema em estilo ryhthm and poetry, chamado Rap da Injustiça. Mas se dá melhor com outra poesia de mesmo estilo: Atirador de Elite. Algum MC tem que musicar esse poema. Ficaria ótimo interpretado pelo Dexter. Vai ser bola num canto, goleiro no outro.

“O mundo é o vício dos poetas”, este verso do poema Poetas, dá a medida da obra de Germano. Quando tinha 18 anos queria ser hippie, perambular pelo mundo. Sem ter cumprido à risca sua sina, nunca deixou de ser andarilho e se expressar por meio da escrita, principalmente a poesia. Um andarilho da periferia. Ele fala de um subúrbio que não existe mais. O que habita sua memória é o de casas com quintais grandes, mães que são donas de casa e cuidam da educação dos filhos, panorama de sua infância. Isso tudo está na trilogia: Amanhecer na Periferia / Tardes Periféricas e Anoitecer na Periferia. Um contexto diferente da periferia cantada pelos Racionais: "estresse concentrado / cada homem um universo em crise / um coração ferido por metro quadrado". Em comum há a pobreza, a incerteza. Mas a periferia também não é mais a mesma cantada pelos Racionais. Vale ouvir Emicida, que canta a lua e as estrelas que cobrem o céu dos arrabaldes e fala de um povo que luta dia a dia, mas que tem alegria e esperança no futuro.

Germano tem domínio da palavra e sabe ser um poeta profissional. O livro traz dois poemas vencedores de concursos. Um aborda o tema da água; outro, a questão da mulher. O primeiro está no nível da grande composição de Guilherme Arantes, Planeta Água. O outro revela o talento e sutileza ao falar da mulher, nominando-as de Maria. Marias que já não existem mais, dando lugar a Ingrid, Carol e Sthefani. Curiosamente, na sequências desses poemas encomendados, vêm três petardos que saíram da jugular do poeta: O Vício; Labuta e Transitar.

O poeta de São Mateus, conhecido pelos sambistas que frequentam o lendário Boteco do Timaia, faz apologia da leitura e dos livros. O cara crê mesmo que a literatura salva. Talvez ele próprio tenha sido resgatado pelas letras. Se não foi, consegue transmitir uma paixão pela leitura que só vi no escritor Luiz Alberto Mendes – que nos 30 anos de cárcere a que esteve submetido devorou e foi devorado pelos livros, tornando-se um dos grandes escritores da atualidade.

Germano é obcecado também pela ideia de ter um livro publicado por uma editora. Não precisa ser grande, basta que seja uma Editora. Ele fala disso nos poemas No Encalço; Presunção e Livro Aberto, entre outros. Publicar O Ex-Excluído assim, independente talvez não o tenha satisfeito. Mas com este livro, dá um importante passo rumo ao reconhecimento que merece.

E Germano precisa mesmo de um trabalho de editor. Seu livro é um tanto caótico e os textos em prosa, se retirados, não fariam muita falta – sobretudo aqueles muito pessoais, que soam mais como depoimentos. O título, além de não fazer muito sentido, é de difícil pronúncia. Raulseixista que sou, decepcionei-me um pouco com os textos dedicados ao Maluco Beleza. Mas isso não tira o brilho da obra, que tem verdadeiras pérolas como Pássaros em Nova York, uma das melhores coisas que já li sobre o 11 de Setembro. Tão sutil e belo que sequer menciona o ataque aéreo explicitamente. Se bem organizados, este e outros poemas publicados comporiam uma antologia belíssima, que revelaria um poeta à altura de outros grandes nomes da periferia e da literatura brasileira urbana contemporânea.

São Paulo, 27 de fevereiro de 2012
Para a coluna Literatura Periféria do blog Outras Palavras.

Última atualização em Qua, 07 de Março de 2012 14:43
 

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