Diversidade e Participação
"A França é cega às questões de cor", diz pesquisador francês PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Sex, 24 de Outubro de 2008 15:51

Em roda de conversa, professor Claude Carpentier debate sobre diversidade cultural na França e na África do Sul.



Em viagem de intercâmbio por universidades brasileiras, o professor francês da Universidade de Picardie Jules Verne, Claude Carpentier, participou de uma roda de conversa com o tema “O desafio da diversidade nas políticas educacionais da França e da África do Sul”, na Ação Educativa. O evento, organizado pelo Programa Pesquisa e Monitoramento de Políticas Educacionais, contou com a presença de educadores e outros interessados.

Nos últimos 15 anos, o professor realizou pesquisas sobre como as políticas educacionais respondem à diversidade cultural, ao desafio do enfrentamento das desigualdades étnico-raciais e da promoção da diversidade nas políticas educacionais da França e da África do Sul.

Carpentier começou a sua apresentação explicando a importância da análise das estatísticas feitas pelos Estados para perceber qual a sua visão sobre o país. “Toda classificação social também é uma hierarquização, e com elas você pode verificar quais são as perguntas que o governo quer responder”, afirmou. Segundo o professor, França e África do Sul não possuem dados quantitativos oficiais sobre origem étnica ou racial. E isso também influencia as políticas educacionais destes países.

“A França é cega às questões de cor”

Ao justificar a falta de estatísticas étnico-raciais sobre a população francesa, o pesquisador foi categórico: “a França é cega às questões de cor”. Ele explica que não se pensava, até pouco tempo atrás, na diversidade cultural, étnica e racial no país. Até então, prevalecia o conceito de cidadania, concedido aos nativos, em oposição aos estrangeiros. Segundo o professor, isso acarretou na manutenção de políticas educacionais que não contemplam o novo perfil da população, que possui atualmente uma expressiva quantidade de imigrantes, principalmente de Argélia e Marrocos.

Para Carpentier, isto causa pressão sobre o governo francês para uma mudança nas políticas que também abrangerá a educação. Ele cita como exemplo as ações afirmativas e compensatórias, usadas pelos EUA desde 1950 e que começam a ser discutidas na França, com duas concepções antagônicas. “Os contrários acreditam que, a partir do momento que você cria uma classificação, ela se eterniza, perdura”, afirma.

O professor também mencionou a discussão em torno dos conteúdos escolares devido à imigração em pontos controversos da história francesa. “Um bom exemplo é a Guerra da Argélia. É preciso que morram os contemporâneos deste episódio para poder mexer nessas feridas, que ainda estão muito abertas. É um parto”.

África do Sul: do apartheid racial para o sócio-econômico

Na África do Sul, o professor Claude Carpentier explica que, onde havia o modelo do apartheid, de classificação racial, agora existe uma hierarquização sócio-econômica, passando de uma problemática racial para uma social.

Segundo o professor, há duas classificações estatísticas no país. Uma é oficial, criada após o fim do apartheid, que não leva em conta questões raciais, criada para tentar esquecer a desigualdade inter-racial. A não-oficial, feita pelas ONGs internacionais, que é a forma usada para se medir os progressos no país.

Carpentier conta que, em tese, qualquer um pode se matricular em qualquer escola. Mas os Conselhos Administrativos de cada instituição fixa um valor da taxa de matrícula. “Hoje, as antigas escolas brancas são multi-raciais, mas com as taxas de matrícula altas que elas cobram, você ainda reproduz as diferenças raciais de forma gritante. As escolas pobres e negras continuaram como antes”.

Última atualização em Qua, 09 de Novembro de 2011 16:03
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar