Observatório da Educação
Rio de Janeiro aplica avaliação na educação infantil em parceria com a SAE PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Seg, 31 de Outubro de 2011 12:46

Em agosto deste ano, foram apresentados os primeiros resultados da avaliação (veja aqui os slides) e celebrado um acordo entre SME-RJ e SAE para a primeira infância.



Do Observatório da Educação
Qui, 27 de Outubro de 2011



A aplicação do método avaliativo ASQ-3® (Ages & Stages Questionnaires) para creches e pré-escolas foi iniciada no Rio de Janeiro por meio da Secretaria Municipal de Educação do município no ano passado, com o apoio da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência (SAE).

Em agosto deste ano, foram apresentados os primeiros resultados da avaliação (veja aqui os slides) e celebrado um acordo entre SME-RJ e SAE para a primeira infância.

Esse método refere-se à avaliação de crianças de dois meses a cinco anos e meio de idade, através de um instrumento criado, em 1997, nos Estados Unidos. O ASQ-3® é utilizado em 31 estados dos EUA, segundo o próprio site do método, e em diferentes países do mundo como Quênia, Zâmbia, Equador e Chile. No Rio de Janeiro, foi aplicado a 46 mil crianças de creches (de 0 a 3 anos), e agora será expandido às pré-escolas (4 e 5 anos).

Seu manual (leia aqui), traduzido para o português, instrui a aplicação de um questionário que abrange cinco áreas: os domínios da comunicação, coordenação motora ampla, coordenação motora fina, resolução de problemas e o aspecto pessoal/social de cada criança.

O modelo é tomado como referência para a SAE, que trouxe a discussão para o Seminário Cidadão do Futuro: Políticas para o desenvolvimento na primeira infância, realizado em Brasília, nos dias 26 e 27 de outubro. O fato tem gerado críticas dos profissionais e pesquisadores do campo da educação infantil, que condenam a falta de debate sobre a avaliação (leia mais aqui).

No entanto, de acordo com Maria do Pilar Lacerda, secretária de educação básica do Ministério da Educação (MEC), o ASQ 3 não será utilizado como um modelo de “aplicação imediata” porque ele tem alguns entraves burocráticos e envolve recursos. Foi expedido como um material experimental, “apenas para um trabalho no Rio de Janeiro”, disse ao Observatório.  

De acordo com Pilar, “o ministro da educação criará um Comitê de Avaliação da Educação Infantil envolvendo diversos setores da sociedade e educação infantil como a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), o Mieib (Movimento Interfóruns de Educação Infantil no Brasil), as universidades, o Inep e a própria SAE para pensar uma avaliação específica para a educação infantil”.   

Comparar e ranquear

A professora Lígia Aquino, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que o método ASQ-3 “como sistema de avaliação, quando trabalha com a ideia de escala, está trabalhando com a ideia de medidas, aferição e estabelecimento de padrões e parâmetros. Trabalha com a lógica de comparação, tanto de criar padrão como de comparar e ranquear”.

Para o Fórum Permanente de Educação Infantil do Estado do Rio de Janeiro (FPEI/RJ), a avaliação “articula-se a uma lógica que privilegia resultados, quantificação e padronização do desenvolvimento das crianças desconsiderando a sua singularidade e historicidade. Responde, a uma concepção de educação infantil que é burocratizada, tecnificada, despolitizada e completamente descontextualizada de todos os avanços e debates que construímos nos últimos anos no campo, sobretudo os que deram direção à organização das diretrizes curriculares”.

De acordo com Maria do Pilar Lacerda, o ASQ-3® “é uma avaliação multidisciplinar, não é específica para a educação e para a escola, mas é uma avaliação muito interessante que dá um retorno bom para um atendimento multidisciplinar da criança”, diz.

Contudo, “vários educadores, cientistas sociais e políticos fazem críticas ao instrumento, por sua lógica de medição para fatores/fenômenos que são altamente variáveis, imprevisíveis e dinâmicos, que são o comportamento humano, a dinâmica coletiva e social”, ressalta Aquino.

Faltou debate

O FPEI/RJ, afirma que o conteúdo do ASQ-3® “possui uma relação direta com a forma como foi implementado: de maneira vertical, sem debate com o conjunto dos educadores e coordenadores, numa perspectiva de “adestramento” dos educadores para responderem aos questionários”.

A professora Aquino aponta que, além disso, “o sistema está muito bem montado, existe uma forma de controle muito intensa e uma vigilância permanente. Se as coisas não caminham direito, corre-se o risco” dos educadores perderem “a função e há uma grande relação de insegurança”.

Para o professor Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), é preciso ver como isso tem sido feito pelo governo do Rio de Janeiro e a maneira como a avaliação foi estabelecida e está sendo colocada em debate. “A questão política é como ela está sendo utilizada e a relação estabelecida com os trabalhadores da educação infantil”, pontua.

Alavarse aponta que o caminho mais adequado seria discutir nos fóruns de educação infantil. “O governo não precisa de autorização dos fóruns para fazer a sua política porque eles são eleitos para isso, mas é importante a consulta aos profissionais da educação”, diz.  

Indicadores de Qualidade

Para Lacerda, a avaliação é interessante, mas, “a equipe da educação infantil do MEC já tem um processo de avaliação, o Indicadores de Qualidade da Educação Infantil”. E explica que já foram feitos 300 mil exemplares e um projeto com a Fundação Carlos Chagas que avaliou a educação infantil em seis capitais do Brasil.

“Nós queremos ouvir, debater mais e criar um instrumento próprio de avaliação da educação infantil, principalmente pensando na estrutura, no projeto pedagógico e na formação dos professores que são os que estão diretamente ligados à questão da educação”, afirma Lacerda.

O FPEI/RJ (veja aqui carta do Fórum sobre o ASQ-3) lembra que existem outros fatores a se considerar. “Qualquer proposta de avaliação parte de pressupostos teóricos, éticos e políticos. Envolve a materialidade dos processos educativos, suas condições de produção e seus destinatários (os educadores, as crianças e suas famílias). Envolve, portanto, sujeitos que vivem em condições desiguais, que possuem múltiplas e variadas relações sociais e enfrentam diferentes dispositivos sociais de existência social”, pontua.

O método ASQ-3® (manual de aplicação, kits e questionário) é comercializado no site www.agesandstages.com e em sites de venda online, como a Amazon.com.

Última atualização em Qua, 16 de Novembro de 2011 11:11
 

Comentários  

 
0 #1 Lucia 03-12-2011 00:32
Interessante
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