Observatório da Educação
Secretaria de Educação aumenta vagas de professor mediador; docentes criticam condução do projeto PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Sex, 15 de Abril de 2011 12:52
Um ano após a implantação do cargo de professor mediador na rede estadual de ensino, o governo de São Paulo aumentou o número de vagas nessa função e ratificou a importância da justiça restaurativa na resolução de conflitos no ambiente escolar; mais de 2.000 docentes exercerão o cargo em seu segundo ano de implantação



Segundo a secretaria de educação, a rede passará a ter 2.100 professores mediadores em 2011, um aumento de 75% em relação a 2010, que teve 1.200 exercendo o cargo. A secretaria afirma que a receptividade das escolas foi positiva e praticamente unânime ao projeto.

Professores e pesquisadores consultados pelo Observatório, porém, estão divididos quanto à efetividade do programa. Apesar de reafirmarem a importância do professor mediador e da justiça restaurativa dentro da escola, muitos criticam a forma com que a secretaria de educação tem conduzido o projeto.

A justiça restaurativa é um modelo de resolução de conflitos que busca soluções com a participação dos envolvidos – no caso das experiências desenvolvidas na comunidade escolar, professores, estudantes e familiares. Vinha sendo adotada em algumas escolas paulistas desde 2004, mas o cargo de professor mediador, que se dedica exclusivamente a desenvolver a prática, só foi criado em março de 2010.
 
Cabe ao docente elaborar diagnósticos de vulnerabilidade e riscos de violência na escola, além de implantar programas de prevenção relacionados a temas como o racismo, o bullying e a homofobia, entre outros.

Podem exercer o cargo professores efetivos e ocupantes de função-atividade. Boa parte deles são docentes readaptados – que, por motivos diversos, não exercem a profissão em sala de aula. Após uma análise do perfil dos candidatos, cerca de 1.200 docentes da rede assistiram a palestras sobre a função de professor mediador durante três dias em Serra Negra. Depois passaram por um curso à distância de quatro meses.

Professora mediadora da Escola Estadual Paulo Sinna, em Santo André, Maria do Socorro de Souza já havia sido orientadora pedagógica em um centro comunitário da cidade por três anos. Ela criticou a formação dada pela secretaria de educação. “Minha turma possuía mais de cem alunos, não conseguíamos discutir, compartilhar experiências”, afirma.

Opinião semelhante teve a professora mediadora Joana (nome fictício), de uma escola na zona leste de São Paulo. Para ela, o curso foi excessivamente teórico e distante da realidade das escolas. “Uma das aulas foi dada por um mediador de conflitos de uma empresa privada. Não tinha nada a ver com o que eu vejo nas escolas”.
 
Para a pesquisadora Helena Singer, coordenadora-geral da Associação Cidade Escola Aprendiz, esses problemas acontecem devido ao tamanho da rede estadual e à velocidade com que o projeto está sendo implantado. “Foram mais de mil professores [na primeira formação] em um fim de semana. A escala é muito grande.”.

Ela defende que a formação se baseie na relação interpessoal, com grupos menores. “É um tipo de trabalho que realmente precisa de uma formação mais qualificada. É diferente de você divulgar uma nova apostila para professores e oferecer para eles”.  Por outro lado, tanto a pesquisadora quanto as professoras entrevistadas elogiaram o material elaborado pela secretaria.

Inspetor

Outro problema relatado por alguns professores é o tratamento dado aos professores mediadores, no ambiente escolar. Maria do Socorro relata que algumas colegas reclamam de ter que desempenhar a função de inspetoras. “Tem muita diretora que manda a professora-mediadora cuidar de criança no recreio, correr atrás de aluno”.

A atitude seria justificada, para Helena Singer, devido à dinâmica da escola. “Quando há conflitos no ambiente escolar, sempre se encaminha para o coordenador ou para o diretor, que acabam ficando com o tempo todo tomado para isso. Diante de uma política dessa, muito recente, ele pode entender que chegou alguém para resolver os seus problemas”.

Reconhecendo que nem todas as escolas se adaptaram completamente ao cargo de professor mediador, a supervisora do Sistema de Proteção Escola, Beatriz Graeff, afirma que os diretores estão sendo levados aos cursos de formação inicial junto com os professores mediadores, para entenderem e se adaptarem à nova função. “Se houve no início alguma desentendimento, hoje é muito mais aceito, entendido e há uma receptividade muito grande nas escolas” (Leia a entrevista completa com a supervisora aqui).

Perfil do mediador

A seleção dos professores mediadores também deve ser aprimorada, defende Helena Singer. Para a pesquisadora, a comunidade deveria participar no processo de indicação do profissional que cumprirá a função. “Além da relação interpessoal e de ser próximo da comunidade, é preciso que o professor mediador saiba articular a rede de proteção. É importante que ele consiga fazer com que Conselho Tutelar da Infância fale com o posto de saúde, que converse com a família e também com os professores. Para a gente poder sair da lógica do encaminhamento, em que um encaminha para o outro e não se resolve o assunto”.

Beatriz Graeff, afirma que mudanças na próxima seleção ocorrerão justamente para a busca de um perfil mais próximo do ideal. “A gente precisa aprimorar ainda mais a seleção do perfil do professor. Com os diretores, a gente apurou melhor quais são as competências fundamentais para a atuação do professor mediador: liderança e favorecimento do diálogo e das relações interpessoais entre as pessoas que frequentam o ambiente escolar”.

Última atualização em Qua, 27 de Abril de 2011 12:50
 

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