Observatório da Educação
Seis escolas brasileiras apresentam experiências de ensino sustentável PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Qui, 28 de Junho de 2012 15:30

Em tempos de Rio + 20, escolas que participam do Projeto Currículo Global experimentam currículos sustentáveis como parte de projeto internacional

No último dia 16, aconteceu em São Paulo o seminário Currículo Global 2012 "Rio+20 vai à escola", que reuniu professores, educadores, além de apoiadores e organizadores do Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade - uma proposta de ONGs internacionais e nacionais que pensam em educação sustentável. No Brasil, a organização que integra a iniciativa é o CECIP (Centro de Criação de Imagem Popular).

Participam do projeto seis escolas brasileiras, públicas e privadas: Colégio Bandeirantes, E.M.E.F. Guilherme de Almeida, E.E. Professora Julia Macedo Pantoja, E.E. Professora Luiza Hidaka, Escola Teia Multicultural e Escola Politeia.

O objetivo do encontro, segundo os organizadores, era mostrar como recomendações da Carta da Terra (documento feito na Conferência da ONU para a Sustentabilidade em 1992, a Eco-92) estão sendo implementadas por algumas escolas paulistas.

No evento, estiveram presentes uma representante da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo e uma da Secretaria Municipal da capital, além de professores e diretores das seis escolas envolvidas, fundações apoiadoras e convidados, como o professor José Pacheco, da Escola da Ponte.

O Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade é uma iniciativa de cinco ONGs da Áustria, Benin, Brasil, Reino Unido e República Tcheca. Com apoio da União Europeia, envolveu entre 2010 e 2012 cerca de 200 professores de 40 escolas de ensino fundamental.

Em 2010, foram realizadas viagens de estudos dos professores brasileiros ao Benin e ao Reino Unido, para conhecer a realidade de outras escolas que tentam colocar em seus currículos a sustentabilidade no seu conceito mais amplo. No encontro do dia 16, os professores exibiram um vídeo sobre o processo, além de fotos e materiais sobre as viagens.

Sustentabilidade além do meio-ambiente

Os educadores dessas seis escolas incorporaram às suas aulas temas de desenvolvimento sustentável sem deixar de lado o currículo oficial. Sustentável, nesse caso, vai além do meio ambiente, e inclui também assuntos como: comércio justo e consumo sustentável, pobreza e justiça social, direitos humanos, cultura de paz, democracia, migrações, relações interculturais e interdependência global.

Na apresentação, os professores contaram das viagens de estudos que fizeram ao Benin e ao Reino Unido, onde conheceram as consideradas melhores escolas e, na África, escolas em situações de vulnerabilidade. Um caso que se destacou entre as escolas que visitaram foi o de Shongai Center, em Benin: uma escola agrícola onde são aceitas pessoas de todas as idades, e um lugar que tem se tornado referência em ensino de plantio sustentável.

Os educadores que se envolveram no projeto acrescentaram aos seus conteúdos tradicionais (em qualquer área, de artes a matemática) essa vivência que aprenderam com os outros países e passaram a dar uma dimensão global e de sustentabilidade em todos os seus níveis.

A professora de matemática Isa Mello, da Escola Estadual Pantoja, diz que agora traz para as aulas de matemática questões contemporâneas como código florestal, locomoção urbana, e índices comparativos de países em questões como educação, saúde etc.

Apesar de as escolas já trabalharem em alguma medida com alguns conceitos do Currículo Global – como justiça social e ambiental – agora as aulas possuem uma dimensão global. Por exemplo, em exercícios sobre transporte (emissão de poluentes etc), Isa mostrou para seus alunos que na mesma semana da última greve do metrô de São Paulo, pelo menos em outros três países do mundo trabalhadores do transporte se manifestavam também.

Algumas ações do Projeto Currículo Global

- Reuniões mensais de trabalho com cada escola
- Intercâmbio contínuo entre os educadores via internet
- Oficinas temáticas reunindo as escolas
- Elaboração/implementação/avaliação de Planos de Aula e Projetos Interdisciplinares
- Visitas de estudo ao Reino Unido (2010) e ao Benin (2011) com educadores de todas as escolas envolvidas
- Avaliação continua e avaliação externa

Produtos

Um manual do currículo global, que “contribuirá para a inclusão sistemática e rotineira dos temas de desenvolvimento sustentável no ensino das diferentes disciplinas do ensino fundamental no Brasil e nos demais países”.

Mais condições para a participação

Durante o seminário, o professor da Escola da Ponte, José Pacheco*, criticou a Secretaria de Educação e outros apoiadores do programa por retratarem os professores que participaram como heróis, em vez de oferecer condições materiais de participação efetiva no Projeto Currículo Global, como liberação remunerada e não obrigatoriedade de repor horas/aulas.

Sua opinião era a de que, se os professores tiveram que participar do projeto de sustentabilidade fora do horário de trabalho, e se as viagens e estudos não contam como trabalho, o poder público não se empenhou realmente no projeto.

Partindo disso, ele criticou as difíceis condições dos professores brasileiros, que “trabalham mais e ganham menos” que os europeus. Criticou também as cadeiras vazias durante sua fala – cadeiras que pertenciam à representante da Secretaria de Educação e da Secretaria Municipal.

Mas, sustentou que suas críticas eram fraternais, e não retiram o mérito do trabalho: “tive o privilégio de conhecer muitos projetos que o Brasil tem. Isso aconteceu em 70, 80, 90... e tudo continuou igual". O professor falou que pouco do que foi dito no encontro é realmente uma novidade, e que existem projetos semelhantes pelo Brasil.

*A Escola da Ponte

A Escola Básica Integrada Aves/São Tomé de Negrelos, conhecida como Escola da Ponte, é uma instituição pública de ensino, localizada em Vila das Aves, no Distrito do Porto, em Portugal.

Lá não existem salas de aulas, mas lugares divididos por áreas onde os alunos podem se encontrar, encontrar os professores e realizar atividades. E, em vez de serem divididos em séries, os alunos se agrupam de acordo com seus interesses para desenvolverem projetos de pesquisa. Além dos estudos individuais, que depois são compartilhados com os colegas.

 

As escolas afirmaram que pretendem continuar a realizar os trabalhos, mesmo com o fim oficial do Projeto. “Como, praticando práticas obsoletas?”, provocou Pacheco. Segundo ele, qualquer coisa “sustentável” não pode ser feita em escola com horário, com prova. Como numa "aula" formal se desenvolve autonomia? - perguntou.

Uma atitude sustentável que o projeto tenta passar para as pedagogias escolares é acreditar no trabalho em equipe. Pacheco acredita que um professor sozinho na sala de aula é “autismo social”. “O modo como o professor aprende é o modo como o professor ensina, sua cultura de solidão não nos deixa compreender. Solidão da formação é solidão na ação”.

Outra crítica do professor foi à abrangência do projeto: apenas seis escolas. São boas soluções pontuais, mas não se deve deixar de pensar em como tornar todos os ensinos sustentáveis.

As organizações

 

CECIP - Centro de Criação de Imagem Popular (Rio de Janeiro, Brasil)
Fundada em 1986 por um grupo de profissionais de diferentes áreas, com o objetivo de contribuir para a redemocratização do país

NEGO-COM (Porto-Novo, Benin)
Criada em 2001, NEGO-COM (Negociação e Comunicação) é uma organização que trabalha pelo florescimento de uma educação global para todos, e por um desenvolvimento endógeno que permita ao Benin e à África formar cidadãos autônomos, solidários, responsáveis e engajados.

Südwind (Wien, Áustria)
Fundada em 1997, a SüdwindAgentur é uma ONG engajada em Relações Públicas, informação e trabalho educacional no campo do desenvolvimento internacional.

ARPOK (Olomouc, República Tcheca)
A Agência de Desenvolvimento, Assistência e Ajuda Humanitária da Região de Olomouc é uma organização sem fins lucrativos, fundada em Setembro de 2004 pelas Autoridades Regionais de Olomuc e pela Universidade Palacky.

Leeds DEC - Centro de Educação para o Desenvolvimento (Leeds, Reino Unido)
Criado pela Oxfam em 1978 para promover uma maior compreensão dos temas de desenvolvimento/ sustentabilidade global a crianças, jovens e adultos.

Apoiadores no Brasil: Fundação Roberto Marinho, Politeia, Colégio Bandeirantes, Prefeitura de São Paulo, Governo do Estação de São Paulo

Do Observatório da Educação
Qua, 21 de junho de 2012

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