Observatório da Educação
Educação não deve estar subordinada a interesses privados, diz pesquisadora PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Qui, 12 de Abril de 2012 19:56

Theresa Adrião, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, pesquisa temas como o financiamento e a gestão da educação básica e as relações entre o público e o privado no campo educacional. Em entrevista concedia por e-mail ao Observatório da Educação, ela comenta, sob essa ótica, as parcerias da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEE) no programa Educação Compromisso de São Paulo.

Observatório da Educação - O que acha do Programa Educação Compromisso de São Paulo, como um todo?

Theresa Adrião -
Em primeiro lugar penso que o fato do governo do Estado apresentar um programa com essa amplitude é um indicativo de que as políticas educacionais até então implantadas foram no mínimo inócuas. Penso que rever os salários e recompor as escolas com um condizente quadro de funcionários são medidas mais que urgentes. No entanto, essa urgência diluída em quatro anos me parece complicada.

Outro aspecto complicado é o foco em escolas prioritárias ou políticas focalizadas. São Paulo viveu experiência semelhante com as Escolas Padrão, na década de 80. Um projeto que focalizava um número limitado de escolas e que não pode, inclusive pela falta de investimento do próprio governo, ser expandido. A história não parece favorecer a perspectiva de expansão do projeto de reorientação para todo o Ensino Médio ou de investimento no Ensino Fundamental. O que ocorrerá com as milhares de outras escolas está em aberto.

Observatório – O que acha da diferenciação salarial e trabalhista entre os professores dessas escolas e das outras? Enxerga algum problema nisso?

Theresa -
A diferenciação salarial apenas consolida a percepção de que uma escola de qualidade precisa ter professor em condições de dedicar-se exclusivamente. Assim posto, as condições de jornada deveriam ser estendidas a todos os docentes da rede. Este ponto também repete o modelo de focalização que rompe com a lógica de rede e cria ou aprofunda desigualdades. 

Observatório - O que acha da filosofia de “co-responsabilização” das empresas? Isto é, as empresas se responsabilizarem pelas questões sociais (no caso, educação)?

Theresa
- Não se trata de filosofia, trata-se de políticas de marketing estimuladas por agências que buscam consagrar ou valorizar as marcas envolvidas. Preocupa-me profundamente que uma política pública voltada para a garantia de um direito constitucional, como é a educação, esteja subordinada e seja pautada por este tipo de empreendimento.

Observatório - O empresariado deve se responsabilizar por essas questões?

Theresa -
A questão não é essa, a questão é: pode uma política de Estado se pautar por interesses privados? Penso que não. A educação não pode e não deve estar subordinada a interesses privados.

Observatório - Qual seria o tipo de envolvimento ideal, no seu ponto de vista?

Theresa -
A maior contribuição do empresariado seria que todos pagassem seus impostos devidamente e dessa forma contribuíssem para a ampliação dos recursos públicos para a educação, também que combatessem as guerras fiscais, como forma de explicitar seu compromisso com os cidadãos do local em que estão instalados.

Observatório - Acredita que tenha algum problema com o linguajar e a cultura empresarial serem aplicada às escolas?

Theresa -
Obviamente que sim, a escola não é uma empresa e não pode ser administrada como tal. A lógica de maximização dos investimentos e diminuição de custos na escola apenas induz a mecanismos de exclusão e ao aumento da seletividade interna do sistema educacional.

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Educação não deve estar subordinada a interesses privados, diz pesquisadora

Do Observatório da Educação
Qui, 12 de Abril de 2012

 

Última atualização em Qui, 12 de Abril de 2012 20:40
 

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