Cultura
Um Dia do Grafite para São Paulo PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00

Por: Antonio Eleilson Leite

O grafite surgiu nas ruas de São Paulo na década de 1970. Primeiro, por meio das pichações poéticas e, depois, com a stencil art, técnica que consiste na aplicação de desenhos moldados em máscaras de papelão com reprodução seriada. Rapidamente este tipo de intervenção artística foi ganhando adeptos(as), tornando-se um movimento artístico de grande influência na capital paulista, chamando a atenção de todo o  País. Já na década de 1980, alguns(mas)  grafiteiros(as) tiveram seus trabalhos expostos na Bienal Internacional de Arte de São Paulo e passaram a ser requisitados(as) para eventos e para trabalhos de publicidade. Durante a gestão da prefeita Luiza Erundina (1989 a 1992), grafiteiros(as) foram chamados(as) a realizar intervenções coletivas na cidade, iniciativa que contribuiu para superar  o preconceito de setores da sociedade que confundiam o grafite com pichação.

Com o apogeu do movimento hip hop na década de 1990, o grafite amplia sua presença para as periferias e despertou a vocação artística de muitos(as) jovens de baixa renda.  Hoje, o grafite está incorporado de tal forma na vida urbana da metrópole que já faz parte da identidade paulistana. Exemplo maior disso é o sucesso da exposição O peixe que comia estrelas cadentes, dos grafiteiros Os gêmeos, que levou mais de 50 mil pessoas a uma galeria de arte de São Paulo de julho a setembro de 2006, fato inédito no Brasil.

O mais importante no grafite é a expressão. Nesse sentido, é uma arte que humaniza o espaço urbano, dando cor e beleza aos muros da cidade. O grafite é também um grande fator de inclusão social.  Em todas as regiões metropolitanas do País, centenas de projetos sociais se utilizam do grafite como forma de inserção de jovens em ações de cidadania. Em São Paulo, se destacam o Projeto Pixote – ONG vinculada a Universidade Federal de São Paulo, a ONG Escola Aprendiz e a ONG Ação Educativa, que tem em sua sede, na Vila Buarque, um Centro de Juventude, onde há um núcleo dedicado ao grafite e que mobiliza centenas de artistas durante a Semana de Cultura Hip Hop, evento anual realizado desde 2001.

Por isso, a Ação Educativa está impulsionando o Projeto de Lei que pede a criação de um Dia do Grafiteiro para a cidade de São Paulo. A data deve ser comemorada todos os dias 27 de março, data do falecimento, em 1987, de Alex Vallauri, pioneiro do grafite no Brasil. Nascido na Etiópia em 1949, filho de italianos, Vallauri foi grafiteiro, pintor, artista gráfico, desenhista, cenógrafo e gravador. Chegou ao Brasil em 1965, em Santos, e logo se transfere para São Paulo. Fez graduação em comunicação visual na FAAP, onde depois se tornou professor. Entre os vários fatos da sua vida, realizou especialização em Estocolmo (Suécia) e, a seguir, iniciou seus trabalhos em grafite em São Paulo. Passou uma temporada em Nova York entre 1982 e 1983 e também participou de três edições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, sendo o primeiro grafiteiro a participar do evento.

Tido como artista de vanguarda, Vallauri não teve oportunidade de se popularizar a exemplo de grafiteiros como Os gêmeos, Binho, Speto, Zezão, Tikka, Nina e tantos outros(as). Nem tampouco conseguiu se consagrar como artista, vindo a falecer com apenas 38 anos. Atribuir o 27 de março como o Dia doGrafite é um duplo reconhecimento: celebra-se a arte e o artista.