Cultura
Humildade, dignidade e proceder PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
O lema do futebol de várzea,  serviu de  título para o  editorial da primeira edição da Agenda Cultural da Periferia, publicação da ONG Ação Educativa que neste mês de maio completa seu primeiro ano de existência.

O lema do futebol de várzea,  serviu de  título para o  editorial da primeira edição da Agenda Cultural da Periferia, publicação da ONG Ação Educativa que neste mês de maio completa seu primeiro ano de existência. Utilizo-me dele aqui nesta Coluna porque  não há  expressão mais apropriada para identificar a produção cultural da Quebrada. No campinho, aquele clarão  preservado em meio à densa ocupação habitacional dos bairros periféricos,  se percebe como numa alegoria,  a dor e a delícia de se viver nas bordas da Cidade. Sergio Vaz, baluarte da periferia paulistana diz que não faz poesia; “ jogo futebol de várzea no papel”. Quando começamos a fazer a Agenda da Periferia, entendemos o que quis dizer o poeta. 

A Ação Educativa busca com este  guia cultural, jogar um pouco mais de luz sobre a produção cultural feita nas margens da Metrópole Paulistana. Foram 12 edições  com tiragem de 10 mil exemplares distribuídas hoje, em mais de 70 pontos, quase todos na Periferia.  Uma iniciativa de afirmação. Não é “resgate” nem “resistência” como gosta de ver certos setores da  esquerda. Nem “inclusão” ou  “protagonismo” como classificam, na maioria das vezes, as organizações do chamado Terceiro Setor ( Fundações, Institutos e empresas) e a  Grande Imprensa.

O  objetivo é produzir um sentido político de  mobilização com perspectivas de emancipação, baseado em valores de cidadania, ou seja de garantia de direitos. Esse palavrório aí se traduz muito bem  como  humildade, dignidade e proceder. Humildade  é honra; dignidade é respeito; proceder é  confiança. No futebol de várzea , assim como no Sarau da Cooperifa , no Samba da Vela; na Posse Haussa, no Grupo Força Ativa  e em tantos outros agentes culturais da  periferia se comunga esse  sagrado mandamento.

A Agenda Cultural da Periferia, cuja coordenação cabe a este que escreve essas mal traçadas linhas,  também reza nesta cartilha desde quando ela nasceu.  E certamente esta é a principal razão de seu sucesso.  O maior sinal  de êxito deste projeto é  o respeito por ele adquirido junto ao movimento cultural da periferia. É por isso que a Comunidade Samba na Feira, da Vila Santa Maria na Zona Norte fará uma homenagem à Agenda da Periferia no dia 15 de junho próximo, o que nos enche de orgulho.

O nosso lastro  é a confiança.  Toda primeira semana do mês eu mesmo entrego a Agenda em vários pontos da periferia. É muito gratificante ser recebido com respeito e afeto nas comunidades. Ali mesmo, artistas me procuram para falar de eventos e saio invariavelmente com os bolsos cheios de folhetos que depois são nosso ponto de partida nas reuniões de pauta.  A Agenda da Periferia  é cada vez mais um veículo assimilado pelo movimento como um aliado. E é isso que queremos ser. Não somos o movimento nem a ele nos subordinamos. Preservamos nossa independência para manter a coerência, o proceder.

A primeira edição da Agenda  Cultural da Periferia saiu com 49 eventos. Já na segunda edição passamos para 60 e na terceira alcançamos mais de 70 notícias publicadas média mantida até hoje. Além dos eventos, é muito importante na Agenda, a publicação do perfil de artistas periféricos. Ao longo de 12 edições, biografamos 30 deles. Acreditamos com isso que estejamos dando uma importante contribuição para a Memória da Cultura de Periferia.

Certo dia entreguei  um exemplar da Agenda ao sambista e pesquisador Nei Lopes, durante uma reunião que fiz com ele. Nei logo me pediu outras edições e saquei da pasta todos os exemplares anteriores ( era fevereiro/2008). Nei,  é um  questionador  dessa denominação “cultura de periferia”, embora seja um incentivador dos artistas periféricos. Perguntei então a razão pela qual queria os exemplares. Ele me respondeu: “ isso é fonte para minhas pesquisas”. Fiquei extremamente orgulhoso. Não tinha me dado conta até então, dessa dimensão da Agenda Cultural da Periferia.

Outra coisa importante  de se registrar é a distribuição. Cadastramos cerca de 70 pontos na Grande São Paulo. Metade deles, repassa para outros pontos atingindo mais de 100 multiplicadores da Agenda. Desses 70 pontos,  somente 10 são na Região Central. Há também uma distribuição nos CICs que são os Centros de Integração e Cidadania, órgão da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo com presença em regiões de periferia da Grande São Paulo. A Secretaria de Cultura de São Paulo repassa , exemplares da Agenda para os mais de 100 grupos contemplados no  VAI – Valorização de Iniciativas Culturais, programa que apóia projetos culturais de jovens de bairros periféricos da Capital.  Hoje, 90% da tiragem da Agenda é distribuído em menos de 10 dias e se espalham por toda a periferia paulistana como um rastilho de pólvora. Os 10% restante  fica no balcão da Ação Educativa e costuma  se esgotar   até o dia 20 de cada mês.

Desde a edição de abril/08 passamos a ter um domínio na Internet: www.acaoeducativa.org.br/agendadaperiferia  O que tínhamos antes era  apenas as edições em pdf para download . Isso foi um ganho enorme. A partir de então passamos a atualizar a Agenda semanalmente. Toda sexta-feira de manhã, nossa redatora  inclui  eventos que chegam após o fechamento da edição impressa. O pessoal já assimilou e tem vindo  notícias regularmente na Redação já com indicação para o site. Com isso, a Agenda passou a ter um dinamismo muito interessante, além do fato, é claro, de poder ser acessada em qualquer lugar do Planeta.

Pretendemos em breve elevar  de 16 para 24  o número de páginas e chegar, em duas etapas,  à tiragem de   50 mil exemplares. Para isso precisamos fazer investimentos na ampliação da redação para termos maior cobertura de eventos e reportagens com mais fotos e ilustrações,  além de uma prospecção mais rigorosa.  Essas mudanças editoriais virão acompanhados de uma logística a fim de  garantir a distribuição. Montaremos uma rede de entregas com motoboys.  Esses motoqueiros trampam  no Centro e moram na periferia. Seria uma ganho a mais a eles, além de fazer a entrega com espírito de participação. Adotaremos um diplay para colocar nos pontos de distribuição, semelhante aos da Mica que expõe postais nos cinemas e casas noturnas descoladas. Estamos buscando parceiros que queiram investir nessa empreitada, sejam eles públicos ou privados.

A Agenda Cultural da Periferia é para o público  um serviço. Assim como tem o Guia da Folha de São Paulo e do Estadão com o Circuito dos incluídos, a gente tem o Guia dos Excluídos do Curcuito Cultural. Para os artistas periféricos  é visibilidade e também a possibilidade de se comunicarem, se conhecerem, estabelecerem parcerias, redes, discussões. A publicação é fonte para o Mercado. Muita gente foi contratada depois de ter sido vista na Agenda. É também  fonte para a Imprensa. Várias  matérias foram publicadas nos jornais de grande circulação a partir da Agenda que cai nas mãos de muito jornalista.

É uma curta trajetória. Uma modesta história feita com muita dedicação e esmero. A Ação Educativa só tem uma única funcionária  contratada exclusivamente para trabalhar na  Agenda da  Periferia. É uma estudante de jornalismo que também é poeta e moradora da  periferia. Elizandra é seu nome. Uma guerreira de pena afiada, talentosa e de rara sensibilidade. Antes dela, Adriana, negra e periférica  como ela, segurou o BO da Redação.  Entretanto, cerca de 10 pessoas acabam se envolvendo no trampo da pauta até a expedição e depois que sai da Ação Educativa mais de cem pessoas  se envolvem na distribuição do Guia numa rede de ampla capilaridade.

Creio que como o poeta Sergio Vaz, a gente não faça jornalismo, fazemos futebol de várzea no papel. No domingo de manhã, a periferia se agita, grita, chora, trutas se aliam nas tretas que rolam.  Somos também assim. Fazer a Agenda da Periferia é um exercício de persistência, crença e doação. É também nosso trabalho, nosso ganha pão. E nossa maior satisfação é chegarmos no Samba da Vela sempre na primeira segunda-feira do mês para lançar cada nova edição da Agenda Cultural da Periferia e sermos saudados com honras .Ali mesmo, um pacote com 200  exemplares da publicação é consumido avidamente pelos presentes. Experimentar essa sensação,   que vivi 12 vezes  , nos  dá a confiança de que alguma coisa de bom estamos fazendo. E não fazemos sozinho  A gente faz parte do jogo  no campinho da Quebrada. “Tamo junto”, com humildade, dignidade e proceder.

Eleilson Leite
São Paulo, 23 de Junho de 2008
Para a Coluna Cultura Periférica do Caderno Brasil do Lê Monde Diplomatique Brasil

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