Cultura
Na Periferia, toca Raul PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
No próximo domingo, dia 09 de março  vai  acontecer a 1ª Mostra Cultural Arte dos Hippies. O evento terá lugar na Praça do Campo Limpo,  gema da periferia da Zona Sul  de São Paulo.

A parada começa as 10h e segue até as 20h. A idéia, segundo a organização do evento é reunir o maior número de “sobreviventes”  da cultura hippie, promover uma feira, curtir um som e com isso  reiniciar um movimento que teve seus tempos de glória no Brasil  nos anos 70. Se nos EUA, os hippies escolheram uma bucólica fazenda no Interior do Estado de Nova York para celebrar a paz e o amor no final da década de 60, a  Woodstock paulistana fica  num dos picos periféricos mais adensados e conflituosos da Capital. Mas ser hippie hoje em nossa terra, só poderia ser na Periferia. É na quebrada   onde  a pregação do amor e da liberdade faz mais sentido. Tanto como valor intrínseco às comunidades , como demanda às autoridades. Mas ser hippie é  coisa  também de quem gosta do Raul Seixas, patrono do evento juntamente com Bob Marley. Nada mais justo essa homenagem ao Raul.

Raul Seixas que já era um ídolo para os hippies dos anos 70 e 80, virou um mito pra uma geração, hoje com vinte e poucos anos e que sequer viu uma apresentação do compositor baiano. O organizador da Mostra de Cultura Hippie, Valdecir Jr., conhecido como Jotta Erry, é um exemplo dessa rapaziada. Ele tem apenas 24 anos. E olha o perfil do cara.  Terminou o segundo grau e ainda aspira à faculdade, mora na periferia, trabalha na ONG Rede Rua  como educador junto às pessoas que vivem nas calçadas e baixo de viadutos. Jotta Erry é fã do Raul e toca  reggae na Banda Raízes de Javé. É um típico artista da periferia:  talentoso, solidário, empreendedor, e ativista.  Quando o Raul morreu, ele tinha apenas 5 anos. Não pôde vê-lo  em ação mas  embalará com seu evento, os ideais da Sociedade Alternativa, defendida pelo seu ídolo.

Eu sou dos 80 e acabo de fazer 40. Vi dois shows do velho Raul. Sinto-me um privilegiado. Mesmo naquela época, era raro uma aparição do Maluco Beleza nos palcos. E quando aparecia, não era garantia que o show rolasse. Raul chegou a ser preso  em 1982, acusado pela platéia de ser um impostor. A treta rolou em Caieiras, Município da Grande São Paulo. Ele entrou no palco pra lá de bêbado e não conseguia lembrar as letras. A  galera irada foi às vias de fato. Raul saiu escoltado e foi dar explicações na delegacia mais próxima. Parecia ser o fim.

Mas ele ressurgiu. No ano seguinte, no dia 26 de fevereiro, mais de 10 mil pessoas lotaram o Ginásio do Palmeiras para ver o retorno épico de Raul Seixas. E eu estava lá. Havia acabado de fazer 15 anos. A platéia  ansiosa, alternava momentos de confiança e descrédito. O cara entrou no palco, já passava da meia noite.  Se o Raul não aparecesse naquela noite, talvez o ginásio do Verdão viria abaixo,  literalmente. O público delirava e Raul, não bastasse o inusitado de sua presença, resolveu  surpreender ainda mais  o público. Com Tony Osanah na guitarra, e Miguel Cidras nos teclados, só tocou clássicos do rock americano dos anos 50. Em tom professoral, introduziu sua aula: “ o rock começou no Mississipi, nos anos 50 com  Arthur Big Boy Grudup que influenciou um cara chamado Elvis Presley  com uma canção mais ou menos assim…” E mandou My baby Leftt Me.  E assim foi durante um pouco mais de uma hora. Nada de Gita, Maluco Beleza, Ouro de Tolo. O povo gostou, mas reclamou. No fim, valeu pelo momento histórico. Quem quiser conferir é só ouvir o CD lançado pela Eldorado contendo o registro deste show.

Depois desta apresentação, mais um período de ostracismo e internações, até que Raul, entrou em estúdio, depois de três anos sem gravar. Tirou do forno um grande disco. Trata-se do Raul Seixas, álbum que veio ancorado em dois mega sucessos: Carimbador Maluco e  DDI,   rocks bem ao estilo Raul, fã incondicional de Elvis Presley. Comprei  o disco no dia em que chegou nas lojas. Lá no bairro fui o primeiro a chegar com a novidade. Reunimos a galera e nos deliciamos com as novas canções. Raul estava de volta. E voltou com gás.  Dava entrevistas, participava  de sessões de autógrafos. Chegava três  horas atrasado, é verdade, mas aparecia. Fui a uma dessas sessões, numa loja no Top Center na Av. Paulista. Estava marcado para as 11h. Negociei no trampo  uma hora a mais de almoço. Cheguei pontualmente. A fila era enorme. Deu meio dia e nada. Muita gente desistiu. “O Raul não tem jeito” resignava-se os fãs menos convictos. Meu acordo era de estar de volta ao escritório as 13h. Liguei em casa. Pedi para meu irmão de apenas 12 anos vir me substituir na fila. Morava na periferia da Zona Norte. O moleque chegou as 13h20 e o Rausito   nada de aparecer. Tomei bronca do chefe e fiquei sem almoçar naquele dia. Lá pelas  14h30 liga o garoto. “ E aí, ele apareceu? ”, perguntei  incrédulo. “Apareceu, mas o autógrafo ficou no meu nome”, respondeu o mano. Naquele dia entendi o significado  da expressão “ gozar com o pau dos outros”. Guardei a relíquia por muitos anos.

Não sei bem  a data, mas fui ver o show  de lançamento deste disco, agora, que ironia, no Ginásio do Corinthians. Era 1984. Raul faria apenas um show. Com ele não tinha esse negócio de temporada. Tampouco, os empresários topavam qualquer acordo do gênero. O risco de furo  era iminente. Novamente casa lotada. Tinha  quase 10 mil pessoas, imagino. Dessa vez o público estava confiante. O Raul estava bombando  nas rádios e na TV.  Até  no Balão Mágico, programa infantil  da  Globo para o qual escreveu  Carimbador Maluco ele aparecia. Vivia um momento de astro.  Na abertura, nada menos que as duas maiores bandas de rock da época: Tutti Fruti e Made in Brazil. Raul entrou triunfante no palco. Uma banda super afinada com Tony Osanah e Miguel Cidras novamente o acompanhando. Mandou super bem os sucessos do momento e do passado. Uma glória. Este é o velho Raul. A  público curtiu sem muita ansiedade. O clima era de paz e amor. Acabado o espetáculo, a multidão saiu pelas ruas do Tatuapé, como se estivesse numa procissão. Um puxava os primeiros versos de uma canção e os demais seguiam em coro. Muita gente sentou na porta da Estação do Belém do Metrô e por ali ficou até  as 5h esperando o portão abrir, cantarolando Raul sem parar, em rodas regadas a vinho Natal, comprado nos butecos especializados em atender os insones  que vagueiam na madrugada. Eu subi num buzão na  Av. Celso Garcia. Segui para o Centro e de lá, as 4h peguei o Negreiro, nome que se dava ao  ônibus que cobria  a rota  para as periferias depois da meia noite. Percebi que muita gente fazia o mesmo itinerário.  Saquei que fã do Raul é da periferia até umas hora.

Quando  entrei na USP em 1988  comprovei que a classe média ilustrada e politizada  torcia o nariz para o Raul Seixas. O pessoal gostava dos medalhões da MPB ( Chico, Caetano, Gil, Milton, etc. ) e da Vanguarda Paulistana que ainda gozava de amplo prestígio: Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Premeditando o Breque entre outros. Rock? Ah, era a nova geração: Titãs, Paralamas, Legião Urbana, Barão Vermelho, Lobão e toda essa galera. Bom. Eu gostava de tudo isso, mas não tirava o Raul do topo de minhas preferências. Sentia-me meio um ET nas conversas na mesa do Bar.Saquei que meu apreço pela Raul tinha a ver com minha procedência Muitas vezes eu era o único ali que veio do subúrbio. Ser da Periferia na USP naquele tempo era algo tão improvável, que até  moradia estudantil eu consegui. Lembro-me que a assistente social foi até em  casa para checar minhas “condições de vida” . Assinou na hora a aprovação de minha vaga no CRUSP e ainda me deu bolsa alimentação.

Para meus amigos, curtir Raul  era coisa de “ bicho grilo”, expressão desdenhosa para se referir aos hippies que insistiam em manter a conduta paz e amor. O Raul morreu em agosto de 1989, e aí que os universitários enterraram o cara mesmo. Mas acontecia um movimento inverso, nos bairros de periferia.  Crescia a legião de fãs do Maluco Beleza. E  muitos jovens  aderiram à Raulmania, formando fãs clubes, grupos de discussão sobre a Sociedade Alternativa, e tudo mais. Olha que louco! Essa galera saia em bandos para ver shows de artistas covers do Raul. Em apresentações de outros artistas era comum gritarem do meio da platéia: “Toca Raul!”. Virou  um bordão. O Zeca Baleiro tem  brincado com isso em seus shows. No programa BR 102 da Rádio Kiss FM tem lá uma seção “Toca Raul!”. Outro dia fui ver uma apresentação de um cover do Raul  no Ibira Moto Point, encontro semanal de motoqueiros no Ginásio do Ibirapuera. Tinha uma multidão. A rapaziada era toda da Periferia. Entrei no meio e curti  um bocado. Notei que lembrava a letra inteira de dezenas de canções. Tornar-se fã do Raul é como andar de bicicleta. Você pode ficar um tempo  inativo, mas não capota da magrela nunca mais.

Que bom ver agora esta belíssima iniciativa  da Primeira Mostra Cultural Arte dos   Hippies que vai rolar no Campo Limpo no próximo domingo.  Entre as 8 bandas programadas para subir no palco evento, uma delas,  só  toca Raul. É a Tecora.  Todas as demais são de Reggae. Jotta  Erry,  me explicou que os hippies estão muito ligados  no  som da Jamaica. “O reggae virou a trilha sonora dos que seguem o estilo de vida hippie” diz o educador . Mas o Raul está  no coração de todos e é  inspiração permanente. “A galera se reúne em grupos e nas rodas só dá Raul”, completa Jotta Erry. O Maluco Beleza estará onipresente.   Raul Seixas continua sendo negligenciado ou mal compreendido  pela  elite, pela  intelectualidade. Mas na periferia ele é reverenciado.  Toca Raul!


Eleilson Leite
São Paulo, 06 de março de 2008
Para a Coluna Cultura Periférica do Lê Monde Diplomatique Brasil.