Cultura
Do tambor ao toca-discos PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana.

 

 

No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana. Apresentação ressalta importância dos discos de vinil e a luta para manter única fábrica brasileira que os produz.


Não faz muito tempo que a figura do DJ virou uma celebridade. Sua ascensão foi meteórica. Antes recluso no fundo do palco ou por trás dos biombos nas casas noturnas, desde a década de 90 este músico vem ocupando lugar de destaque, tanto como instrumentista, como na discotecagem. Nas últimas duas décadas, esse profissional se sofisticou artisticamente. Hoje em dia, alguns dos mais requisitados produtores fonográficos são DJs.

Assediado pela mídia e por legiões de fãs, este artista pop não precisa dividir com ninguém os louros da fama. O cara toca sozinho, cria os sons, arranjos, sampleia, mixa e faz firulas nas pickups, com discos de vinil ou também nos CDs. Os que têm carisma, agitam e levam as platéias ao delírio. Impressionante ver o inglês Fat Boy Slim arrebatar uma multidão em pleno carnaval de Salvador.

Essa consagração do DJ exerce um fascínio junto ao público, motivando uma busca pelo aprendizado do manejo dos toca-discos. Todo mundo quer ser DJ, nem que seja por um dia. E muita gente almeja a profissionalização. Para atender a essa demanda, surgem inúmeras escolas especializadas no ramo. Até uma universidade internacional foi criada recentemente, com cursos itinerantes. São cerca de 60 vagas disputadas por milhares de aspirantes em todo o mundo.

Mas os DJs não estão livres dos limites atuais da humanidade. Glamour e sucesso são para poucos. A maioria desses músicos rala madrugada adentro no calor das casas noturnas, recebendo cachês que correspondem, muitas vezes, à consumação de duas ou três mesas. Na falta de oportunidade em badaladas boates, aceitam tocar em casamentos, batizados e aniversários de crianças. Sem regulamentação, tornam-se novos precarizados profissionais de entretenimento, nas milhares de baladas que agitam a vida noturna das metrópoles.

Preocupado com a situação, um grupo de artistas criou recentemente o Sindicato dos DJs e Técnicos de Cabine de Som – o Sindesp, que atua em São Paulo. De acordo com este sindicato, há hoje, no Estado, entre 6 e 8 mil DJs. A entidade vem se empenhando para obter, no Congresso Nacional, a aprovação de lei que regulamenta a profissão.

A doutrina das ruas, criada por Afrika Bambaataa nos guetos de Nova York, nos anos 70, ainda pulsa nas veias dos obstinados. Assim é Erry-G
Há, porém, um segmento que não se vende e não se rende. São os DJs de Hip Hop. Não gozam a fama, mas não fazem concessões a modismos. Para esses artistas, o ato de animar uma pista é antes de tudo uma missão — embora não desprezem a profissionalização. Sua atuação não está descolada do MC, do B-Boy e do grafiteiro. Ou tem os quatro elementos, ou não é Hip Hop. A doutrina das ruas, criada por Afrika Bambaataa nos guetos de Nova York nos anos 70, ainda pulsa nas veias de DJs obstinados. Assim é Erry-G, jovem de 29 anos morador da periferia da Zona Sul de São Paulo, na divisa com Diadema.

Erry-G, cujo RG lhe atribui o nome de Rogério Dias da Silva, tomou contato com o Hip Hop em 1994 quando ainda era adolescente. Cinco anos depois, inscreveu-se nas oficinas da Casa de Hip Hop de Diadema e aprendeu o ofício das pickups. Pegou jeito e rapidamente desenvolveu raro talento com o instrumento. Engajado, Erry-G sempre atuou em ações sociais como educador, sem deixar os palcos. Participou de duas edições do Fórum Social Mundial realizadas em Porto Alegre e atuou nas sete edições da Semana de Cultura Hip Hop, evento organizado pela ONG Ação Educativa em São Paulo.

Depois de anos de pesquisa, aprimoramento e muitas apresentações, Erry-G criou um espetáculo onde o DJ está no centro do palco, interagindo com os outros três elementos do Hip Hop. A parada chama-se Dos tambores aos Toca-Discos. O projeto tem como proposta reverenciar a tradição africana, manancial da música negra norte-americana e brasileira. Para Erry-G, as pickus são tambores eletrônicos. O instrumento surge em sintonia com o ritmo da percussão. Segundo ele, isso explica o scratch, batida criada na Jamaica por Lee “Scratch” Perry, inventor do Dub, matriz de tudo o que se faz até hoje com os toca-discos. Rogério quer, com seu espetáculo, mostrar o quanto o DJ está inserido na ancestralidade africana. Em sua apresentação só rola música black, de artistas geniais como James Brown, Ray Charles, Marvin Gaye, Nina Simone, B.B. King, Jorge Benjor, Tim Maia, entre outros.

O que este batalhador instrumentista quer mostrar com seu espetáculo é que o DJ de Hip Hop não toca sem uma base de conhecimento, sem um conceito que dê identidade a sua música. Daí a diferença marcante com os DJs da cena eletrônica, responsáveis por todo esse ôba ôba que cerca a atuação destes músicos. E o que Erry-G apresentará aos que forem ver seu show no próximo domingo na Casa das Caldeiras em São Paulo (Ver detalhe nas Agenda Cultural da Periferia) é uma demonstração do apego às origens negras e à afirmação de sua influência junto a um instrumento musical visto por muitos como desprovido de qualquer reminiscência africana. E não tem erro. O scratch é básico para um DJ de Hip Hop. Não à toa, são esses os mais virtuosos. Nos eventos exclusivos de Hip Hop, rolam batalhas que revelam uma habilidade impressionante entre os concorrentes. A música eletrônica nem usa mais vinil. E já tem equipamento que permite fazer scratch com CD. Bom, isso você não vai ver no domingo. Pinta lá. Começa as 16h e vai até as 23h. Só vai dar vinil.

Músicos como KLJ lutam para salvar a "fantástica fábrica de bolachas. "Se o governo salva bancos, por que não pode ajudar uma fábrica de discos"?
E por falar nisso, continua a luta pela sobrevivência da Poly Som, a única fábrica de vinil do Brasil. Abandonados pelas gravadoras há mais de 10 anos, os bolachões só são encontrados nesta pequena fábrica que fica Belford Roxo, município da periferia da Região metropolitana do Rio de Janeiro. Desde 2002, a fábrica vive na iminência de fechar as portas. Naquela época, ela produzia 5 mil LPs por mês, sendo que essa é sua capacidade de produção diária.

Hoje a Poly Son vive da obstinação de DJs de Hip Hop. Alguns ilustres músicos como o DJ do Racionais MCs, KLJ vem liderando um movimento para salvar a “fantástica fábrica de bolachas”, como é conhecida no meio. A luta ganhou recentemente o apoio do Senador Eduardo Suplicy (PT/SP), que por sua vez engajou o ministro Gilberto Gil. “O governo salva banco, porque não pode ajudar uma fábrica de disco”, argumentou KLJ. O ministro se comprometeu a fazer gestões junto ao BNDES e outras agências federais de fomento, para encontrar uma solução. Fala-se em incentivo fiscal, entre outras medidas.

É preciso garantir a produção de vinil no Brasil. Caso contrário, o DJ de Hip Hop vai se ver ainda mais isolado na cena musical. Já é uma luta adquirir o equipamento, que pode chegar a R$ 8 mil. Se não tiver os bolachões para tocar, esses DJs ficarão sob risco de extinção. Para isso não acontecer, vá ver Erry-G. Prestigie os DJs que tocam nas noites dedicadas ao Hip Hop, nas casas noturnas. O som rola invariavelmente nas terças e quartas, nas casas mais badaladas. Mas se você for à periferia, vai encontrar o som no final de semana. Vamos apoiar as ações para manter a Poly Son. Será que não seria uma boa estatizá-la? E se ela virar uma ONG e se tornar um Ponto de Cultura? Sim. Produzir vinil tornou-se uma causa. Olha aí, sr. Ministro. Seja como for, vamos colocar o DJ de Hip Hop no centro da cena, lugar de onde ele nunca deveria sair.

Mais
Dos tambores aos toca-discos: Apresentação de MCs, escritores de grafite, dança e expressão corporal africana/brasileira. No repertório, entre outros, Tim Maia, Ray Charles, Sandra de Sá, Nina Simone, Jorge Benjor, Diana Ross, Marvin Gaye, B.B.King, Gloria Gaynor.

Domingo, 17/2, das 16h às 23h. Na Casa das Caldeiras: Rua Francisco Matarazzo, 2000 — Metrô Barra Funda — São Paulo

Para programação completa, preços e ingressos, www.pretosoulsim.com.br

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique