Cultura
Sarau do Binho: crônica do poeta sem bar PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Ter, 05 de Junho de 2012 19:11

Como culturas das periferias já não dependem dos botecos, nem de mistificações da classe média

 

Por Antonio Eleilson Leite*

A Prefeitura de São Paulo ameaça fechar o Bar do Binho. Depois de oito anos funcionando sem alvará, o veredito da autoridade municipal foi implacável com o bar que leva o nome do poeta, que também nomeia o sarau que nele acontece todas as segundas-feiras. O assunto bombou nas redes sociais e blogs independentes. A solidariedade foi instantânea e intensa. Um efeito-cascata que gerou uma corrente de solidariedade impressionante. E o Binho merece. Sujeito gente boa é o Robinson Padial. Nesta segunda-feira, 4 de junho, a expectativa é enorme. Muita gente vai colar no Sarau. Será que o Binho resistirá à ordem oficial? A subprefeitura manterá sua decisão, mesmo diante de tanta contestação?

Binho não quer ficar acima da lei. Há anos ele tenta, sem sucesso, obter a documentação que legaliza seu bar. Os meandros da burocracia, no entanto, são impiedosos. E não é só com o proprietário de um boteco da periferia. Até a semana passada, a prefeitura não havia expedido o alvará de construção do estádio do Palmeiras. Com isso, a empreiteira WTorre não pode demolir toda a arquibancada do antigo Palestra. Tem autorização apenas para reforma. A obra está há mais de ano em curso e uma documentação básica não é expedida. Imagine a situação do Binho. Oito anos peregrinando nos corredores da prefeitura, de guichê em guichê. Será perseguição? Creio que não.

Tem muita gente apressada interpretando o caso como “criminalização” dos movimentos sociais ou atribuindo ao fato uma consequência do processo de “militarização” das Subprefeituras. Não comungo dessa visão. Pelo menos do tom, eu discordo. É verdade que o Sarau do Binho é um reduto de militantes de esquerda dotados de uma verve crítica bastante radical. Muitas vezes, a poesia, razão principal do encontro semanal, fica em segundo plano diante de tantos discursos, informes de ocupações, marchas, campanhas e outras ações políticas.

Mas isso, em si, não faz do Sarau um inimigo da gestão Kassab. Pelo menos, a política municipal de cultura é muito apreciada nas conversas, principalmente os editais do VAI – Valorização de Iniciativas Culturais e o Edital de Fomento. É comum ver, apresentando seus trabalhos no Sarau, vários grupos contemplados nesses editais. E não é só literatura que tem vez. No Bar do Binho, rolam sessões de filmes, além de apresentações cênicas e musicais. É um cara maduro, lúcido. Não sai dando tiro para todo lado; aliás, não dá tiro. “Na hora de guerrear, eu Dalai Lama”, diz ele no seu poema Na hora. Coerente com sua postura não-violenta, Binho contesta, argumenta, endurece, mas não perde a ternura. E assim deve ser.

Não entendo também como militarização a forte presença de militares da reserva nos postos de comando das subprefeituras. Isso é um exagero retórico. Os militares não estão lá sob o comando da Polícia, Exército ou qualquer outra instância do gênero. O Kassab optou por colocar pessoas com este perfil, entendendo que para a gestão local precisaria de uma autoridade forte, sem vínculos partidários. Acho isso um equívoco. Seria melhor, então, colocar técnicos de competência reconhecida e reputação inquestionável. As universidades estão cheias de gente assim. Mas o prefeito quis uma opção mais ao gosto do seu passado malufista. Creio que, a essa altura, o secretário de cultura, Carlos Augusto Calil, já deva ter intercedido: o bom senso prevalecerá e o Sarau não deixará de acontecer.

Mas poderíamos aproveitar a oportunidade para refletir um pouco sobre uma questão mais de fundo. Por que o Sarau tem que ser num bar? Não poderia ser em outro lugar? O Sarau da Cooperifa, grande influenciador da cena literária na periferia paulistana, tendo contribuído diretamente para o surgimento do Sarau do Binho, acabou por estabelecer o padrão do sarau no boteco. Há dez anos, o motivo de juntar poetas num bar era plausível: a ausência de espaços culturais na periferia. Mas hoje, essa justificativa não cabe mais. Há muitos outros espaços como associações, casas de cultura, escolas, pontos de cultura, CEUs e até praças. E a tendência vem mudando.

Hoje, os saraus realizados em bares são minoria, pelo menos na periferia. Dos vinte saraus divulgados na Agenda Cultural da Periferia, guia da Ação Educativa, somente oito ocorrem em bares. É representativo, porém não mais hegemônico. Há anos, escuto de alguns poetas a lamentação por não existir, na sua quebrada, um bar bacana para fazer um sarau. Essa desilusão não faz mais sentido. Os encontros literários têm se espalhado nos últimos anos em outros espaços. É emblemático o Sarau Suburbano, que acontece numa livraria. Criado por Alessandro Buzo, este sarau, que está comemorando dois anos e já tem coletânea publicada, é realizado todas as terças- feiras na loja Suburbano Convicto, que fica no Bixiga - tradicional bairro boêmio do centro onde não faltam bares. A professora e poeta Maria Vilani, mãe do cantor Criolo, organiza um sarau na Casa de Cultura Palhaço Carequinha, no Grajaú. Esses são apenas alguns exemplos de um novo paradigma.

Questiono-me muitas vezes, também, sobre este aspecto boêmio e etílico dos saraus da periferia. Não se trata de purismo. Mas muito sarau se autopromove, e com razão, por ser espaço da comunidade, democrático, lugar onde a poesia desce do pedestal, onde a literatura reina absoluta em um encontro de comunhão e tudo o mais. Mas isso tudo pode acontecer em qualquer lugar, não necessariamente em um bar. Claro, tem o charme de escutar e declamar poesia embalado por uma saborosa cerveja. Mas um lugar assim não pode ser visto, como insistem sobretudo os de fora, como um espaço de “inclusão cultural”, conceito que atribui aos saraus da periferia um potencial exagerado de promoção da cidadania.

Um sarau num boteco é, antes de tudo, uma curtição, seja no Capão Redondo ou na Vila Madalena: agradáveis espaços para apreciação estética. E tem que ser assim mesmo. Será que não é possível curtir uma poesia sem assumir postura de militante cultural?

Essa mistificação do sarau de periferia acontece porque o objeto do encontro é a literatura. Fosse música, seria mais um barzinho de MPB ou de samba na quebrada. Mas como ali se declama — além da poesia dos escritores do sarau — Manoel Bandeira, Drumond e outros cânones, o encontro fica mais denso de significado. Afinal, literatura sempre foi coisa de elite. Por mais que os saraus queiram dessacralizar a poesia (e fazem isso bem!), a tradição imaculada dessa linguagem artística acaba por conferir ao evento uma conotação redentora aos olhos de certos setores progressistas, que se encantam em ver os pobres da periferia, supostamente pouco letrados, cultivarem a poesia. Não percebem que nesses mesmos espaços se promove — indiretamente, é claro — o consumo de bebida alcoólica, algo tão “politicamente incorreto” aos olhos dessa mesma sociedade.

Dito de outra forma, a questão do bar é que, por natureza, ele é restrito, e não democrático, como querem crer alguns. Imagine quantas pessoas poderiam frequentar um sarau realizado em um boteco, se ele acontecesse numa escola, como é o caso dos Mesquiteiros, que se desenrola numa escola pública em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste? Ou em um Ponto de Cultura, como é o Literaturanossa, de Suzano? Não tem problema um sarau em um Bar. Está aí a Cooperifa, com muita vitalidade. Mas se o sarau quer cumprir uma missão de difundir o livro, a leitura e a literatura, tem de entender que não pode ficar só no boteco.

Retomando o exemplo da Cooperifa, é preciso expandir. Sergio Vaz e sua trupe fazem saraus nas escolas, mostras culturais, distribuição de livros, intervenções poéticas como o Poesia no Ar, entre outras iniciativas. Outros saraus são assim — inclusive o Binho, que começou com a Postesia, ainda na década de 1990 (intervenção que consiste em escrever poemas no verso de placas publicitárias colocadas em postes, principalmente de candidatos a eleições). Depois de criado o sarau, Binho lançou, entre outros projetos, a Bicicloteca. Também se associou a um Ponto de Cultura, por meio do qual faz inúmeras atividades de promoção da leitura.

Quero com isso relativizar a importância do bar para os saraus. Não estou propondo que o sarau de bar mude de endereço. Tradição é difícil de conquistar e tem muito a ver com o lugar. Espero que o Binho resolva este problema, mas caso o bar realmente não volte a funcionar, não será o fim do sarau. Lembremos. A Cooperifa já foi despejada de um bar. Ressurgiu no bar do Zé Batidão, que outrora já havia pertencido ao pai do Sergio Vaz. O destino é tortuoso, por serem tortuosas suas linhas.

Se o fechamento do bar se consumasse (bati três vezes na madeira), Binho resolveria a questão com a criatividade e serenidade de sempre. Não vai esmorecer. Ademais, ele não é só um ativista dono de bar. Antes de tudo, é um poeta e dos bons. Sua obra não é vasta, mas é belíssima. Ele tem apenas um livro de poesias publicado. Saiu pela Edições Toró, em 2007, mais uma do ano decisivo para a cultura de periferia (leia mais na coluna de maio). A obra é bilingue (português e espanhol), chama-se Donde Miras e é uma obra dupla: de um lado ele, do outro, Serginho Poeta. O livro está esgotado, mas pode ser acessado no site da Toró. Vale a pena.

Robinson Padial nasceu em 1964, é de sagitário: metade homem, metade cavalo. Mas se bicho fosse, seria uma coruja: observador, quieto, aparentemente distraído, noturno, sábio. Um verso dele:

“Não tem problema que o pão é de ontem
eu também não sou de hoje.”

Quer outro? Veja:

“De eu ser assim tão ermo
me destaco da paisagem
.”

Binho escreve por imagem. Antonio Cândido explica: “Imagem é, com efeito, o nome que damos a toda a figuração de sentido que faz as palavras dizerem algo diferente de seu estrito valor semântico” [1]. Seu apelido, Binho, vem do campinho, do Campo Limpo onde nasceu e de lá nunca saiu. Sua mãe lhe chamava aos gritos pelo diminutivo Robinho, virou Binho.

O campinho, porém, não existe mais. Deu lugar a um ferro-velho de carros apreendidos pela Polícia. A periferia na qual passou a infância também não existe mais. Saudoso de seus tempos de criança, escreveu:

“De tão solitário
sou meu próprio vizinho
.”

A poesia do Binho é existencialista e um tanto melancólica. Não sei como ele está se sentindo nesses turbulentos dias que marcam a iminência do fechamento de seu bar. Espero que como em seu poema Teologia:

“Amanhã bem cedo vou ao cartório
Passar Deus no meu nome
E depois se estiver chovendo
Provavelmente vai estar
Vou pôr o sol para brilhar para nós
.”

É isso aí, Binho. Deixo para você, um poema do Mario Quintana que cai muito bem neste momento:

“Todos estes que aí estão
Atravancam meu caminho,
Eles passarão!
Eu passarinho.”

-

[1] Melo e Souza, Antonio Cândido, O estudo analítico do poema, Humanitas, São Paulo, 2009

* Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural e coordenador da área de Cultura da Ação Educativa

Do site Outras Palavras
Seg, 4 de junho de 2012

Última atualização em Qua, 06 de Junho de 2012 17:42