Cultura
Quinze anos de literatura e resistência PDF Imprimir E-mail
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Ter, 15 de Maio de 2012 17:33

Criativo em vários gêneros e empreendedor pela cultura periférica, Ferréz prepara romance surpreendente, que confirmará sua condição de grande escritor

 

Por Antonio Eleilson Leite*, na coluna Literatura Periférica

No editorial da edição de maio da Agenda Cultural da Periferia, publicação da Ação Educativa, estão enumeradas vinte efemérides relacionadas com o ano de 2007 e que foram importantes para a cultura na periferia. Começa com a própria Agenda, lançada naquele ano e os vinte anos da Rádio Heliópolis FM, que há cinco passou a ter vida legal como rádio comunitária. Dentre os outros dezoito marcos do ano de 2007 mencionados texto, tem o surgimento da Coleção Literatura Periférica na Global Editora, a Coleção Pelas Periferias do Brasil e a loja Suburbano Convicto, ambas iniciativas de Alessandro Buzo, os dez anos do CD Sobrevivendo no Inferno, do Racionais MC’s, entre outros acontecimentos.

De fato, é algo notável. Talvez 2007 tenha sido realmente um divisor de águas. Porém, toda lista, por mais ampla que seja, é sempre restritiva e sujeita a omissões. Esta justa homenagem da Ação Educativa não se livrou desse risco. Faltou pelo menos uma efeméride muito importante. Naquele ano de 2007, o escritor Ferréz comemorava dez anos de carreira literária. Em 1997, ele publicou seu primeiro livro, uma obra de poesia chamada Fortaleza da Desilusão. Ou seja, neste ano de 2012, Ferréz faz 15 anos de intensa atividade literária. Reginaldo Ferreira da Silva tinha 22 anos quando, de tanto ler livros, resolveu fazer um para chamar de seu.

Falemos então deste escritor, músico, poeta e empreendedor de 36 anos. E para abordar a trajetória do escritor, ativista e empreendedor Ferréz, assisti novamente o documentário Literatura e Resistência. Dirigido por ele mesmo e lançado em 2009, este DVD conta sua história com o auxilio luxuoso de amigos de quebrada, cultivados desde a infância, e de parceiros conquistados a partir de sua notoriedade como escritor — gente ilustre como Chico Cesar, Marcelino Freire, Paulo Lins, Lourenço Mutarelli, entre outros. Vídeo feito na raça, com muita imagem registrada com equipamento doméstico, fragmentos de programas de TV, mas também vários registros bem produzidos. O resultado é uma compilação iconográfica da trajetória deste que, como diz Chico Cesar logo na abertura, é um dos principais escritores brasileiros da atualidade.

O título do vídeo faz jus ao que é exposto na obra. Veja: não é literatura de resistência, é Literatura e Resistência. A palavra resistência, tão desgastada quando pronunciada na voz de militantes que só sabem ficar na defensiva, ganha conotação libertária ao expressar a determinação com que Ferréz realizou seus projetos. Tudo conspirava contra o cara, mas ele não só contrariou as estatísticas, como inverteu a lógica do destino. Por isso, a definição que mais se ouve nas falas dos entrevistados ao se referirem a ele é “herói”. Mas tudo que ele não quer é ser um herói. Embora sendo um fanático leitor de quadrinhos, a figura de um notável entre os comuns, que tem a missão de salvação, não lhe cai bem. Ele é 1 Da Sul . O nome de sua grife e loja quer dizer união: “somos todos um pela dignidade da Zona Sul”.

Ferréz era visto na quebrada como aquele sujeito esquisito. Não bebia, não fumava, não gostava de futebol (até hoje ele é assim). Só queria saber de ler, por isso era isolado. Mas não parava de pensar na sua comunidade, o Jardim Comercial, um bairro no imenso distrito do Capão Redondo, território periférico onde moram mais de 200 mil habitantes. Sempre trabalhou, desde cedo teve que ajudar a mãe nos cuidados com os irmãos. Nunca exerceu qualquer função que exigisse alta qualificação. Foi assistente de pedreiro, balconista de padaria, faxineiro, auxiliar de escritório, entre outras ocupações. Mas sua vasta experiência de serviços gerais lhe deu um senso prático e conhecimentos tão diversificados que costumava impressionar seus amigos que o identificavam como um “sabe-tudo”.

Provavelmente a impressão que se tinha de Ferréz na quebrada era um peão metido a intelectual. Mas ele não era arrogante. Aliás, muito humilde. Há uma passagem marcante no vídeo que mostra bem isso. Ao publicar seu livro Fortaleza da Desilusão, proeza alcançada graças a um inusitado apoio de sua então patroa, apreciadora de poesias, Ferréz fez contato com uma distribuidora de livros, pois não sabia o que fazer com quase mil exemplares da obra. O livreiro pediu dez exemplares do livro e ele, com ajuda de um amigo perueiro, levou todo o estoque para a distribuidora que ficava no Brás. Insensível, o distribuidor não quis sequer armazenar os livros em seu estoque, ficando apenas com a dezena de exemplares combinada.

Desiludido, Ferréz sentou-se sobre os pacotes do Fortaleza da Desilusão. Meio que esperando um milagre, ali ficou até o anoitecer, protegendo os livros do assédio dos catadores de papelão que rondavam o local, ávidos pelo lote que devia pesar cerca de 300 quilos. A solidariedade enfim chegou. O dono do bar vizinho à distribuidora abordou o jovem poeta, oferecendo seu modesto estabelecimento para guardar os pacotes. Ferréz ficou mais de uma semana buscando diariamente uma cota de livros que coubesse em sua mochila, até transportar todos os exemplares de volta para casa. Era para desistir. Mas ele, humildemente, resistiu.

Ferréz abandonou sua veia poética, pelo menos o estilo de seu frustrado livro de estreia, que flertava com a poesia concreta. Criou outras rimas depois, como compositor e cantor de rap. Muitas delas estão na trilha sonora do DVD e nos clipes dos extras. Vale a pena conferir, especialmente o clipe da música Judas, que tem um sampler da canção Child in Time do Deep Purple, algo improvável para um rap. Mas sua incursão como MC é algo que surge com força somente depois do sucesso como escritor. Voltando ao fatídico final de século XX, ele se meteu a produzir roupas e acessórios. Surgiu em 1999 a 1Da Sul. Assim como não era poeta e se propôs a fazer poesia, ele também de roupa não entendia, mas criou uma grife. Cumpriu na prática o que diz a canção dos Titãs: “eu não sei fazer música, mas eu faço; eu não sei cantar as músicas que faço, mas eu canto”.

Sua empresa surgiu de uma brincadeira, conta ele com muita graça no vídeo. No dia primeiro de abril, soltou uma mentira de que surgira uma grife na quebrada com o nome 1 Da Sul; que fazia roupas e coisa e tal; que estava bombando na quebrada. Os manos não deram atenção ao devaneio do poeta, mas Reginaldo insistiu na anedota e de tanto brincar com o feitiço, se fez de feiticeiro. Coisa de maluco mesmo. Levaria páginas para descrever algumas das agruras do início de seu negócio. Veja o documentário e depois vá à avenida Comendador Santana, no centro do Capão e confira a loja bacana que é. Se não quiser ir á perifa, tem uma filial na galeria da rua 24 de Maio no Centro.

O empreendedor, portanto, surgiu antes do escritor. E talvez, se não fosse empreendedor, não teria sido escritor, ou pelo menos não teria persistido (resistido) até se tornar escritor. Um ano depois de criada a 1Da Sul, Ferréz lançou o romance Capão Pecado. Publicado pela extinta editora Labortexto, o livro ganhou notabilidade impulsionado pela atuação de Ferréz como colunista na revista Caros Amigos. Contribuiu também para seu reconhecimento a inserção do autor na militância política. A esquerda vivia a conquista de Lula nas eleições de 2002, numa conjuntura marcada pelo advento do Fórum Social Mundial, que teve sua primeira edição em 2001 e se tornou espaço de convergência dos que acreditavam que outro mundo era possível.

Era, enfim, um contexto oportuno para uma inciativa como esta. Uma voz da periferia ganha as páginas de um livro. Mas nada disso adiantaria se não fosse uma grande obra. Um romance bem estruturado, que já respira a benéfica influência do livro Cidade de Deus, de Paulo Lins, grande sucesso editorial adaptado para o cinema pelas lentes de Fernando Meirelles. Se não tivesse méritos literários, portanto estéticos, Capão Pecado não teria vendido cerca de 100 mil exemplares e se mantido com vigor e presença na literatura atual, doze anos depois. Quer saber mais dessa e de outras histórias, além de ver o DVD, leia o livro de Erica Peçanha: Vozes Marginais na Literatura.[1]

O jovem esclarecido da periferia, poeta frustrado, porém não derrotado, virou empreendedor, escritor e ativista cultural radical e lúcido. Antes de publicar seu segundo livro, Manual Prático do Ódio, em 2003, Ferréz produziu, pela Caros Amigos, três suplementos intitulados Literatura Marginal. Lançou dezenas de poetas e escritores de periferias de todo o Brasil. Sua grife se expande. Passa a ser reconhecido como escritor de prestígio com seu segundo romance. É traduzido em países como Espanha, Itália, México e Alemanha. Excursiona no exterior, participa de inúmeros eventos literários: enfim, torna-se uma notoriedade. Mas ele ainda resiste.

Aquela angústia que o consumiu sentado sobre os pacotes de livros na calçada do Brás passou a ser uma história a ser lembrada como fábula. O distribuidor que o subestimou, para não dizer outra coisa, certamente vendeu muitos livros do Ferréz. No prefácio da primeira edição do Capão Pecado, quando o livro passou a ser publicado pela Editora Objetiva, em 2005, ele conta que, depois do sucesso do livro, foi fazer palestra no hotel que o havia rejeitado como faxineiro. Faculdades e escolas frequentadas pela burguesia convidavam-no para palestrar. Numas dessas, mostra o vídeo, ele desafia os jovens de bochecha rosada a procurar um negro nas inúmeras fotos de alunos expostas em um enorme banner que servia de fundo para o auditório onde a conversa se dava. Ele gostava de causar constrangimentos ao sistema.

Em 2004, Ferréz perdeu um grande amigo, Preto Ghóez, líder do grupo Clã Nordestino, morto em um acidente de carro. Maranhense, comunista radical, Preto Ghóez surge no DVD numa rara imagem para deixar sua mensagem em forma de bordão: “todo ódio à burguesia é pouco”. Ferréz sempre zelou pelo legado de Ghóez e a aparição deste no vídeo confere ao documentário ainda mais valor. Ghoéz publicou poemas nos suplementos de Caros Amigos. Dois deles saíram na coletânea Literatura Marginal – Talentos da escrita Periférica, que Ferrez publicou na Editora Agir em 2005, em mais uma inciativa promovendo a literatura da periferia, agora numa grande editora comercial.

O ano de 2006 é dramático para a periferia e toda a cidade de São Paulo. Em maio, acontecem os ataques atribuídos ao PCC, que deflagram uma violenta reação da Polícia Militar. Tempos de pânico, medo e desilusão. Ferréz se vê perseguido. Refugia-se na casa de Paulo Lins, longe da capital paulista. Naquele mesmo ano, publica seu terceiro livro, com o sugestivo nome de Ninguém é Inocente em São Paulo, sua estreia como escritor de contos. Passada a tormenta, veio um tempo de discrição. Ferréz, creio, passa a refletir mais sobre sua obra e condição de escritor. Muita gente que ele publicou passou a produzir seus próprios livros. Ele se volta mais a sua carreira.

Chega então o histórico ano de 2007; dez anos de Fortaleza da Desilusão. Ferréz publica um livro infantil: Amanhecer Esmeralda, mais um sucesso. Isso, curiosamente não é abordado no vídeo. Parece-me algo tão significativo na carreira dele, deveria estar lá. Mas naquele ano, Ferréz participa de um projeto ao qual se refere com muito orgulho. Trata-se da coletânea Cenas da Favela – As melhores histórias da periferia brasileira, organizada pelo escritor Nelson de Oliveira e publicada pela Editora Geração Editorial (que assim como a Agir, faz parte do grupo Ediouro). Nesta obra, Ferréz aparece ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Paulo Lins e outros grandes nomes da literatura brasileira. Mais um livro que o distribuidor do Brás vendeu muito.

Ferréz chegava à maturidade com pouco mais de 30 anos. Ele dá sinais evidentes de preocupações estéticas. No vídeo discorre longamente sobre suas principais influências. Como escritor experimentado, caracteriza cada um dos autores que lhe são caros: Hermann Hesse, Lima Barreto, Plinio Marcos e João Antonio. Retira livro a livro das prateleiras de sua vasta biblioteca, comentando um por um com a autoridade de um escritor consciente do valor de sua obra e do tributo que paga à linhagem de escritores que o formaram.

O professor Antonio Cândido, na sua clássica obra Literatura e Sociedade, nos ensina sobre a relação do autor com o grupo social do qual faz parte. Didaticamente, como lhe é característico, Cândido enumera os pontos dessa relação. Primeiro, a necessidade de um agente individual tomar para si a tarefa de criar uma obra. Em seguida, vem o reconhecimento (ou não) como criador, pela sociedade. Por fim, o autor usa a obra (marcada pela sociedade) como “veículo de suas aspirações individuais mais profundas”[2]. Ferréz parece cumprir na prática, a teoria de Antonio Cândido. Mas falta, a este grande escritor da periferia, o devido reconhecimento do meio acadêmico: por seus méritos literários e não só por sua atuação e condição social como é comum nos estudos que lhe têm como objeto.

Em 2012, Ferrez lançará mais um livro. Será outro romance. O nome da obra é Deus foi almoçar. Ele andou fazendo leitura do livro em alguns saraus e há trechos no blog do escritor (www.ferrez.blogspot.com). Muita gente vai se surpreender com o estilo e a trama. Ele se desvincula um pouco da escrita e, principalmente, da temática que o consagrou. Não. Ferréz não está abandonando suas origens. Mas creio que ele está explorando uma nova concepção estética e isso é muito bom. Antonio Candido explica, na mesma obra citada anteriormente, que embora o texto sempre esteja imbricado com o meio social, os “impulsos pessoais predominam na verdadeira obra de arte sobre quaisquer elementos sociais a que se combinem”[3]. Portanto, Ferréz, aventure-se por novas formas. Afinal, na arte, forma é conteúdo. Explore ao máximo seu talento e parabéns pelos 15 anos de literatura e resistência.

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1[1] Dissertação de mestrado da autora, publicado pela Editora Aeroplano na Coleção Tramas Urbanas, Rio de Janeiro, 2009

2[1] Mello e Souza, Antonio Candido, Literatura e Sociedade, capítulo “A literatura e a vida social”, pag. 23, Publifolha, São Paulo, 2000.

3[1] Ibid, pag. 33


* Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural e coordenador da área de Cultura da Ação Educativa

Fonte: site Outras Palavras
15 de maio de 2012

Última atualização em Ter, 15 de Maio de 2012 17:40