Ponto de Cultura
Homenageado do Dia do Graffiti defende celebração da data PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Qua, 28 de Março de 2012 16:31

Homenageado na edição deste ano do Dia do Graffiti, celebrado anualmente no dia 27 de março, TOTA concedeu entrevista à Ação Educativa para falar sobre sua participação no começo do movimento, nos anos 1990, e dos desafios enfrentados pelos grafiteiros de hoje.

TOTA foi escolhido como homenageado por coletivos de graffiti de toda a Grande São Paulo que por mais um ano se reuniram para organizar a curadoria coletiva da exposição comemorativa, realizada no Espaço Cultural Periferia no Centro, na Ação Educativa. A homenagem é fruto de seu trabalho como um dos principais representantes do graffiti nacional, arte-educador e militante da verdadeira cultura Hip Hop por mais de 20 anos.

Na entrevista, TOTA defende o papel social dos graffiteiros e a celebração da data como forma de dar espaço para novos e antigos artistas. Leia abaixo a íntegra.

Ação Educativa - Como começou sua história com o graffiti?

TOTA – Comecei incentivado por um grupo chamado DMC, que fazia bailes lá em Santo André. Fui incentivado somente por gostar de desenho, mas ainda não desenhava nada. Aí comecei a ler gibis da Mônica, do Cebolinha e comecei a me interessar mais por desenho e também a desenhar. Depois, o grupo começou a pedir algumas camisetas customizadas e então comecei a pintar na mão, mas só trabalhava com camisetas. Só em 1990 é que eu comecei a pintar alguma coisa na parede. Nesta época já me sentia seguro para isso. E o meu trabalho foi evoluindo desde então.

Ação Educativa - Quando percebeu que queria trabalhar com graffiti?

TOTA - A vontade de trabalhar com isso bateu bastante já em 1990, mas a segurança mesmo só veio bem mais tarde, depois de uns sete ou oito anos fazendo graffiti. Nesta época é que tive coragem de falar: “eu quero trabalhar com isso mesmo”. Neste período foram alguns anos de sofrimento, de levar não na cara, que me fizeram refletir bastante.

Ação Educativa - Como foi viver esse período do começo do graffiti no Brasil? Quais eram as maiores dificuldades?

TOTA - Acho que não faz tanto tempo assim, 22 anos é um tempo legal. No começo, a gente sofria muito dentro de casa. Os pais não entendiam, não queriam saber. E a gente tem uma cultura de não valorizar as produções dos jovens. Tudo que é feito pelo jovem não presta e tudo que é feito pelos mais velhos é o que tem fundamento, é o que as pessoas pensam. Então a gente sofria por isso. Sofria também por não ter renda com o graffiti, não dar dinheiro. Então os pais queriam que você trabalhasse numa empresa, que fosse médico.

Além dos problemas dentro de casa, havia o sofrimento na rua. Na época, pouco se via graffiti nas ruas de São Paulo. Então, por verem pouco, as pessoas não acreditavam que aquilo era uma linguagem artística, que aquilo tinha uma mensagem boa por trás. Por isso, as polícias tinham rejeição, os vizinhos tinham rejeição, porque eles associavam o graffiti à delinquência, assim como associavam nossas vestes, nossa forma de falar à delinquência.

Ou seja, o graffiti não era valorizado por ninguém. Se não fosse eu e meia dúzia de gatos pingados acreditarmos, não tinha nada, porque ninguém botava fé neste trabalho.

Ação Educativa – E hoje, quais são as questões que o movimento enfrenta?

TOTA – Hoje a linguagem está bem consolidada, embora ainda tenha muita gente que ainda desvalorize o trabalho. A questão é perceptível do ponto de vista financeiro também. As pessoas pagam muito mais por uma tela a óleo do que por um mural que é do triplo do tamanho da tela. Acho que isso está um pouco associado à forma como as pessoas veem os grafiteiros. Elas não acreditam nas pessoas que fazem graffiti. Esse preconceito ainda existe.

Mas acho também que a gente já ultrapassou muitas barreiras. A arte do graffiteiro (não o graffiti, mas a arte dele) está até em galerias, então isso acaba sendo um reconhecimento. E hoje já é possível viver de graffiti. No meu caso, tenho três filhos, tenho minha esposa, e consigo sustentar minha família com a renda que eu tiro do desenho. Isso também é uma prova de reconhecimento.

Sem contar a televisão que, quando acerta, consegue mostrar coisas legais, de comunidades que fazem o seu graffiti e tem também seus projetos sociais. Acho que reconhecimento está rolando. Tem alguns que estão na ignorância quanto às propostas do graffiti, mas isso é problema deles. Eles é que têm que se atualizar. Nós temos nosso espaço.

Ação Educativa – Muito se discute sobre esta questão do reconhecimento e das obras de graffiteiros que vão para em galerias. Você acredita que isso desvia o graffiti de sua vocação?

TOTA - O graffiti é uma linguagem jovial mesmo, ela seduz mais os jovens. Mas o importante é quando um graffiteiro, um escritor de graffiti, ou a pessoa que faz graffiti tem a consciência da sua função como artista e passa a ajudar na formação dessas pessoas. Se essa pessoa que faz graffiti não tem nenhum compromisso social, aí também não ajuda em nada. Acho que vai do graffiteiro saber usar essa ferramenta que atinge o jovem com muita facilidade.

O jovem é uma figura difícil de se atingir. Nada chama a atenção do jovem e o grafite consegue romper essa barreira. Quando você consegue fazer isso, tem que saber aproveitar, levar o jovem para lugares bacanas, estimulá-los a estudar, a respeitar o próximo, a não usar drogas. Tudo isso faz parte da cultura do graffiti. Não é só pintar, mas a postura como ser humano. Eu costumo dizer que a arte está associada ao caráter. Se você não tem caráter, não serve muito para ser artista porque somos seres humanos antes de sermos artistas ou qualquer coisa.

Ação Educativa - Você acha que é importante ter um dia específico para lembrar o graffiti?

TOTA - Sim! Com ponto de exclamação! Porque esse papo de dizer que todo dia é dia de grafite é uma bobagem. Isso é muito óbvio. Todo mundo sabe que todo dia é dia de tudo. Todo dia é dia dos pais, todo dia é dia das mães. Só que de tão obvio que é, se a gente não tira o dia 27 de março para dizer e pontuar que é o Dia do Graffiti, ia cair no esquecimento. Então tem que pontuar mesmo. Acho que a inciativa está de parabéns. Ajudou muitas pessoas a sair do anonimato e tem ajudado as consagradas a se destacarem mais.

Leia também:

Texto de Antonio Eleilson Leite, coordenador da área de Cultura da Ação Educativa, sobre a vida e obra de TOTA: Tota: artista cidadão, guerreiro de fé

“o caminho do Hip Hop é a autogestão”, defende o rapper GOG

Ação Educativa recebe shows e exposição em comemoração ao Dia do Graffiti

Última atualização em Qui, 29 de Março de 2012 16:53
 

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar