O samba une o sagrado e o profano no Carnaval de Pirapora PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
Leia a coluna de Eleilson leite, coordenador do Espaço de Cultura e Mobilização Social da Ação Educativa, para o Le  Monde Diplomatique Brasil.


O carnaval dos sambódromos há tempos vem perdendo o encanto de outrora. Os desfiles  tornaram-se  um grande negócio e os sambas  estão com a qualidade muito questionável. Você se lembra de algum samba do ano passado? Está mais fácil lembrar do candidato  em quem votamos na última eleição do que recordar os versos do samba enredo de uma Escola, seja de São Paulo ou do Rio de Janeiro. O mestre Osvaldinho da Cuíca tem dito que agora o que se ouve é “marcha-enredo”. “Está tudo muito parecido, musicalmente pobre”, completa,  resignado.  E ele tem razão. Muito  samba é feito na base da encomenda, atendendo patrocinadores e outros interesses que influem na vida de uma Escola de Samba. Sempre há os concursos internos, mas o resultado por vezes não  contempla a melhor composição. O próprio Osvaldinho foi vítima dessas injustas escolhas. Depois de muitos anos ele resolveu concorrer ao samba do Vai Vai. O tema Educação definido para 2008, motivou o grande sambista. Apresentou um samba para ser o melhor do Brasil. E era mesmo. Mas foi derrotado. Seria a chance de guardarmos na lembrança um belo samba enredo.

Definitivamente, o sambódromo não é o lugar mais adequado para se ouvir um bom samba. Certamente se vê coreografias exuberantes, brilho e cores de arrebatar as arquibancadas e os telespectadores no sofá, mas  chamar a local de desfile das escolas, de “passarela do samba” é um contra- senso. Foi-se o tempo. O tempo em que a ala dos compositores é quem definiam as coisas numa Escola de Samba. Hoje, os velhos sambistas são representantes de glórias passadas e mandam pouco nas agremiações carnavalescas. Mas  se nas escolas, os mestres vêm perdendo espaço, fora delas, seu prestígio só aumenta. No Rio, os veteranos da Portela e Mangueira  têm agenda lotada durante o ano inteiro. Em São Paulo, os mestres da Camisa Verde e Branco, Nenê de Vila Matilde e Vai Vai estão sempre na fita, arregimentando um público cada vez mais fiel. Um público sedento de um samba autêntico com letra poética, melodia  envolvente.  Esse samba não está no Anhembi ou na Sapucaí. Esse samba está nas comunidades da Periferia da Grande São Paulo . Comunidades nas quais as velhas guardas são sempre enaltecidas. E durante o Carnaval, várias  delas manterão seus encontros. Samba da Vela ( Santo Amaro ), Pagode da 27 ( Grajaú ), Pagode da Tia Ana ( Santo André ) são algumas que manterão os cavaquinhos afinados.

Berço do Samba Paulista

Quero  destacar aqui a Comunidade que se reúne no Espaço Samba Paulista Vivo  em Pirapora do Bom Jesus, município da Região Metropolitana que fica a 50 km. da Capital. Uma Cidade de 15 mil habitantes conhecida pelas romarias e mais recentemente pelos blocos de espuma branca no Rio  Tietê que corta o município, fazendo deste,  seu o trecho mais poluído. Tida como o berço do samba de São Paulo, Pirapora guarda a tradição do samba de bumbo que também é chamado de  Samba de Pirapora ou Samba Rural Paulista, como definiu o escritor Mario de Andrade em estudo publicado em 1937 com o mesmo título. O autor de Macunaíma era um entusiasta do batuque  e do samba que  reinavam nas festas populares da pequena cidade ribeirinha.

Mario de Andrade observou  em loco e registrou em suas pesquisas que Pirapora era o ponto de encontro não só de romeiros, mas de sambistas também. E esses encontros se davam principalmente na festa do Padroeiro Bom Jesus. Nos barracões instalados para os devotos pobres se acomodarem  no período de procissões, predominavam os negros vindos de São Paulo, Sorocaba, Campinas, Piracicaba, Capivari  entre outras cidades. Durante a noite,  os devotos faziam  muita batucada nesses alojamentos, cuja precariedade remetia às senzalas. Era o encontro do batuque profano com a romaria sacra, fenômeno, aliás, muito de acordo com as origens do Carnaval. Contam os mais velhos que muita gente vinha à Pirapora mais para acompanhar o samba nos barracões  do que para se benzer da Igreja da Matriz. Ali se praticava o samba de umbigada, o samba do lenço, jongo, tambu, samba campineiro, entre outros ritmos. Cada um associado a uma região ou cidade. A forte presença do bumbo acabou por definir  genericamente  como samba de bumbo, o batuque de Pirapora.

O batizado de Geraldo Filme

Essas festas populares de Pirapora influenciaram vários  cordões de São Paulo e as primeiras agremiações carnavalescas da Capital, como o Grupo Barra Funda, fundado por Dionísio Barbosa. Influenciado pelos batuques de Pirapora, na década de 30, Dionísio foi o primeiro a introduzir o bumbo no carnaval de rua paulistano. Anos mais tarde, o grande sambista Geraldo Filme foi a Pirapora  e, baseado em versos de improviso da Dona Maria Esther, ele consagrou a cidade  no seu imortal samba “Batuque de Pirapora”, cujo refrão diz assim:

Eu era menino
Mamãe disse vamo embora
Você vai ser batizado
No samba de Pirapora

Nos últimos anos, a Cidade de Pirapora vem organizando um Carnaval que valoriza toda essa história que nos faz entender as origens do samba paulista. E neste ano a festa, cujo tema é a cultura cigana, está super produzida. Em meio a uma vasta programação que inclui trios elétricos, bailes de salão e shows de pagodeiros, está lá, no centro das atenções o Barracão do Samba, oficialmente definido como Espaço do Samba Paulista Vivo com o grupo  Samba de Roda liderado por Dona Maria Esther Camargo Lara, de 83 anos, mas com  vitalidade de 23. “ Não importa a idade, o que importa é o rebolado”,  afirma a guardiã das tradições do Samba de Bumbo.

Se no Carnaval, você pretende  ouvir e curtir um bom samba, ficou em São Paulo, não vai  para a Avenida e  tampouco ficará no sofá, vá a Pirapora. Em 45 minutos, partindo do Centro de São Paulo,  você chegará ao reduto do samba. Siga pela Rodovia Castelo Branco, entre em Osasco, passe por Santana de Parnaíba e pronto. Estarás em uma das mais importantes cidades históricas do Brasil. As apresentações do Samba de Roda acontecerão  sábado, domingo e terça , sempre as 12h, regada à feijoada. E sabe quem estará no sábado? Osvaldinho da Cuíca.

O Mestre Osvaldinho  há anos organiza caravanas à Pirapora e é um grande incentivador do grupo de Samba de Roda. Todo Carnaval e também na festa do Padroeiro ele está lá. Neste sábado, Osvaldinho terá a companhia   do Grupo Kolombolo, além da Dona Maria Esther  e os mais de 20 integrantes do Grupo Samba de Roda. Desgostoso com os rumos  do Carnaval e das escolas de samba, Osvaldinho vem cada vez mais apoiando as rodas de samba de comunidade. Ele acredita que nelas ainda se pode fazer samba de qualidade fiel à tradição dos batuques de terreiro como se tem em Pirapora desde o Século XIX. E nas rodas de samba, a recíproca é verdadeira.

Pirapora quer dizer “peixe que pula” em tupi-guarani. Devido à poluição do Tietê não dá para  conferir o fenômeno que deu origem ao nome da Cidade. Mas em Pirapora é possível curtir um Carnaval com samba de qualidade.


Eleilson Leite
Cadernos do Le  Monde Diplomatique Brasil
São Paulo, 01 de fevereiro de 2008

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