Primavera dos livros é o avesso da Bienal PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
Sex, 26 de Setembro de 2008 12:48


Se você  é daqueles que fica sem comer,  mas não deixa de ler. Um sujeito que tem sempre um livro na mão que lhe salva do tédio da fila de um banco, consultório médico  ou na repartição pública. No caminho para casa ou para o trabalho é um livro   que lhe faz companhia no  Metrô, trem ,  ônibus ou mesmo no carro onde ouve um “livro falante”.  Se  acha que o Djavam compôs para você os versos da bela canção: “um dia frio; um bom lugar pra ler um livro…” Então você detesta a Bienal do Livro e não perdeu seu tempo no Anhembi no mês passado  para ver mais do mesmo. Mas se ainda  não sabe, existe um evento que foi feito  na medida para você: A Primavera dos Livros.

Realizada anualmente desde 2002 no Rio de Janeiro e São Paulo, a Primavera dos Livros realizará sua sétima edição  a partir desta quinta 25 até domingo 28 de setembro. O evento acontece  no Centro Cultural São Paulo das 10h as 22h e conta com a participação de quase todas as 100 editoras filiadas à LIBRE – Liga Brasileira de Editoras, organizadora da Feira. Trata-se do encontro de editoras de pequeno  porte que resolveram fazer um movimento contra-hegemônico, criando elas próprias um espaço diferenciado da Bienal, vista por estes editoras, como um evento  cada vez mais atrelado aos interesses das grandes corporações.

Na Primavera do Livro o mais importante é o livro e sua relação com o leitor, ou seja,  a leitura. A LIBRE organiza  a feira como um evento cultural, sem perder de vista, é claro, o aspecto comercial. Nela, todas as editoras têm  estandes iguais no tamanho e design. Assim o leitor não desvia sua atenção nas armadilhas de marketing das editoras como acontece na Bienal. O evento é gratuito e  o CCSP fica do lado do Metrô. As sessões de autógrafo acontecem num local especial, uma de cada vez, sem causar aglomerações e badalações desnecessárias. A sobriedade porém  não significa falta de encanto. O lugar é organizado com muito charme, decorado fartamente com flores e o mais importante  de tudo se sobressai: o livro.

As  pequenas editoras ali presentes têm dificuldade de fornecer seus títulos nas livrarias em função da alta concentração que tem caracterizado o mercado do livro. Hoje, cinco redes do varejo  absorvem mais de 70% do Mercado.  A figura do Distribuidor perdeu força e a compra direta e centralizada pelas redes de mega-livrarias ditam condições que para as pequenas  fica difícil  de aceitar. Além do fato de que as  livrarias hoje, pelo menos as grandes,  estão muito influenciadas  pelos ditames  do Mercado. Há  editoras que compram ponta de gôndola, pagam para terem seus livros em vitrine com destaque e fazem uso de muitos outros artifícios comuns às indústrias que escoam seus produtos em supermercados. Num cenário assim  as pequenas editoras ficam muito fragilizadas.

Para enfrentar a concorrência o trunfo das editoras da LIBRE, embora não apenas destas, é  qualidade de seus livros. Incrível, mas qualidade não é o principal requisito para uma editora se estabelecer no Mercado. Então elas se juntam num trabalho em  rede fazendo da Primavera um grande acontecimento. E os editores vão lá pessoalmente trabalhar nos estandes. A atuação do Editor num corpo a corpo com o leitor é uma  característica interessante da Primavera e mais um importante diferencial do evento.  É a oportunidade de o leitor conhecer aquela pessoa que faz o livro acontecer. Fica aí a dica para os autores  que buscam publicar seus escritos. É a chance de ficar cara a cara com aquele que pode lhe dar a chance que tanto procura.

A LIBRE se assemelha muito a uma ONG. Não por acaso, sua atual presidente, Renata Borges, diretora da Editora Peirópolis   é  gente muito próxima das organizações do Terceiro Setor  e mantém no catálogo de sua empresa uma ampla oferta de livros para este segmento. Como uma ONG, a LIBRE foca na causa e não nos interesses de classe.  O Objetivo é formar leitores,  formular e defender políticas públicas para o livro, democratizar o acesso, fortalecer  as livrarias, entre outras ações.

A Primavera do Livro  reflete bem isso. Lá o leitor se sente a todo momento atraído pelo que o livro guarda em seu conteúdo e pela beleza de seu acabamento. O livro tem um fetiche que todo ávido leitor não despreza. Sou daqueles que acha que  a um  livro não basta ser bom, tem que ser bonito. Por isso recomendo um passeio  no Centro Cultural São Paulo neste final de semana. As editoras da LIBRE fazem livros de excelência e com muito esmero. A programação  está ótima tanto pra adulto como pra criança. E  se na Bienal,  os artistas da periferia eram  intrusos naquele ambiente de requinte enlatado, na Primavera não é assim. Tem quatro atrações culturais com artistas da Quebrada além de  vários livros  de interesse para quem quer entender  esse fenômeno sócio-cultural que é a periferia dos grandes centros urbanos. Veja a programação.

Na quinta-feira, as 20h30 sobe ao palco o grupo de afoxé Umoja, da Zona Sul de São Paulo que  trabalha   música, dança, poesia e dramaturgia em seus espetáculos. O grupo tem 15 integrantes  que envolvem o público em suas performances artísticas de matriz africana. Na sexta, as 20h  é a vez  da roda de samba Pagode da 27 que é do Grajaú, também no extremo Sul de São Paulo. Formado predominantemente por jovens sambistas, este grupo tem como padrinho o Chapinha, do Samba da Vela. São músicos de primeira com um repertório próprio e de clássicos do samba  de terreiro.

No sábado , as 18h o grupo  Versão Popular assume os microfones mandando um rap com swing, ginga afro, letras de beleza poética, além de uma performance diferenciada, sem a marra  que caracteriza ainda muitos grupos de rap. Para encerrar, no domingo 18h, o grande poeta Sergio Vaz, criador e criatura da Cooperifa fará um recital  com seus poemas num clima de sarau numa ode à poesia, ao amor à alegria. Imperdível.

Entre os livros minha principal dica são  dois títulos da Editora Aeroplano do Rio de Janeiro que acabaram de ser lançados. Trata-se de Cooperifa – Antropofagia periférica de Sergio Vaz e Favela Toma Conta, de Alessandro Buzo. Ambos os títulos são da Coleção Tramas Urbanas que é coordenada por Heloisa Buarque de Holanda
e trazem o relato autobiográfico  dos dois autores e agitadores culturais da periferia paulistana  onde enfatizam  suas  trajetórias culturais   do início da carreira até os dias de hoje. A Aeroplano,  no entanto não consta na lista de expositores. Acredito que ela esteja associada a alguma outra editora do Rio. Procurem, vale à pena. Se não acharem  adquiram os livros pelo site da editora.

Na Editora Peirópolis, a dica é um  livro que também  acaba de sair do forno: Transformar é Possível de Ute Craemer e Renate Keller. Esta obra traz o relato da atuação da Associação Comunitária Monte Azul que se organizou nos anos 70 na Favela Monte Azul na Zona Sul de São Paulo. É uma das experiências mais lindas de trabalho comunitário em área de pobreza urbana e que mostra a atuação  importantíssima de uma ONG num tempo em que pouca gente sabia o que significava esse termo. A Associação é hoje  um dos centros culturais mais importantes da periferia paulistana. Uma história de êxito que tem muitos colaboradores como deixam claro os autores que não assumem sozinhos a autoria do livro.

Procure no estande da Editora 34 a edição número 8 da revista Sexta Feira. Publicada em dezembro de 2006 essa edição traz como tema a Periferia. É ótima. Tem vários textos interessantes de gente bamba como o antropólogo Hermano Vianna e ensaios instigantes de estudantes de pós-graduação e ativistas. Os editores tanscreveram a letra da rap  Capítulo 4, Versículo 3, dos Racionais MC’s cuja leitura é fundamental por dois motivos. Primeiro porque é um manifesto de altíssimo calibre político. Segundo porque mostra que, quando bem feito, um rap pode ser lido e ganha força como poesia.

Uma terceira e última dica é o  livro Jovens na Metrópole – Etnografias de circuitos de lazer, encontro e sociabilidade, obra com 10 textos extraídos de trabalhos de pós-graduação de alunos ligados ao Núcleo de Antropologia Urbana da USP. O livro, organizado pelo professor José Guilherme Magnani  e Bruna Mantese de Souza e que foi lançado em 2007, disseca os percursos de grupos que se articulam  em diferentes espaços da cidade fazendo de lugares  inusitados, seus pontos de encontro. É uma obra essencial para se entender a cultura urbana e as formas de apropriação do espaço da metrópole.

O  fato de a Primavera dos Livros acontecer no Centro Cultural São Paulo agrega muito à Feira  e sua pretensão de ser antes de tudo, um evento cultural. O CCSP é um espaço que acolhe bem todas as expressões artísticas e é um dos mais importantes pontos de encontro da juventude paulistana. Outro aspecto muito relevante é  o fato de o CCSP ter a maior biblioteca braile da Cidade e que estará integrada ao evento. Haverá uma cabine para gravação de poemas que depois serão incorporados ao acervo da biblioteca. Se você quiser deixar  sua poesia gravada  passe por lá. Tem também o Ônibus Biblioteca  que estará estacionado no local durante o evento. Criado na gestão de Mario de Andrade no Departamento de Cultura do Município  na década de 1930, o ônibus biblioteca circula pela cidade sempre com 3 mil livros extraídos de um acervo com mais de 130 mil títulos.

As 100 editoras da LIBRE reúnem um acervo de 7 138 títulos. É sem dúvida uma contribuição inestimável à cultura brasileira. Essas obras estarão por quatro dias num mesmo lugar,  exposta ao público despida de artifícios marqueteiros que escamoteiam o que o livro tem de melhor: seu conteúdo. É tudo de graça, exceto os livros, é claro. Se você quer ter sempre a companhia de um bom livro em casa, no buzão, na fila do banco ou em qualquer outro canto, vá à Primavera dos Livros porque lá é seu lugar.

Serviço:
www.libre.org.br
www.primaveradoslivros.com.br

Eleilson Leite
Para a Coluna Cultura Periférica do Caderno Brasil do Lê Monde Diplomatique
São Paulo, 25 de Setembro de 2008






 

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