Cultura Periférica - Le Monde Diplomatique: O Hip Hop nunca foi tão pop PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00











Ouviram da Rua Vinte e  Quatro de Maio no Centro de São Paulo, de um microsistem surrado, uma batida retumbante e ritmada : tum, tistac, tum, tistac tum  . Eram os primeiros sinais da cultura hip hop no Brasil há  25 anos atrás. Ali na esquina com a Rua Barão de Itapetininga, tinha um piso liso redondo de uns 4 metros de diâmetro, em meio ao calçadão áspero e quebradiço. A superfície lisa atraiu os Bboys liderados por Nelson Triunfo. O povo se aglomerava para ver a novidade.  A dança era chamada  de robô. Popularizada por Michael Jackson,   ficou logo conhecida como break. O manos eram da periferia, quase todos pretos. Não deu outra. A Polícia colou  e desfez a roda. A fama porém já tinha se alastrado. Triunfo, que já era figura conhecida dos bailes black dos anos 70 virou um astro. Até em abertura  de novela da TV Globo o cara apareceu.

A roda de bboys ressurgiu tempos depois no pátio da Estação São Bento do Metrô  pelos idos de 85  e também no Largo São Bento em frente ao Mosteiro dos Beneditinos, onde um dia desses,  o Papa ali se hospedou. Já não eram mais  apenas dançarinos. Agora tinha os MC’s . Na falta de DJ’,  o som rolava nos toca-fitas e no embalo do Beat Box ( batida de DJ produzida pela boca ). Em 1988 surge a primeira Coletânea de Rap  e o movimento enfim se estabelece como cultura hip hop  juntando o Bboy ( dançarino), MC ( rapper ), o DJ e o Graffiti. Em 1990 o Racionais MC’s  lança seu primeiro disco e o hip hop  cresce de forma avassaladora durante toda a década  tendo seu ápice no ano de 1997  com o lançamento do disco Sobrevivendo no Inferno posicionando o Racionais como a maior e mais importante expressão do rap   no Brasil.

A ampliação da presença da cultura hip hop até então vinha muito acompanhada do engajamento e a dimensão do protesto era uma marca indissociável daquele movimento. “Sou apenas uma rapaz latino americano  apoiado por mais de 50 mil manos” diziam os Racionais que se apresentavam como “ terrorista da periferia”, “efeito colateral que seu sistema fez”. Os manos cultivavam  uma  expressão indignada, cara marruda. O rap era uma metralhadora com  pente carregado. O sentido de ser da periferia se expressava naquele tempo, principalmente  pelo ódio às elites e ao Estado que  empurraram  os pobres para os fundões da Metrópole.

Essa  contundência  porém, já não tem o mesmo apelo de outrora.  Nesta primeira década do século XXI  assistimos o hip hop virar cada vez mais pop e menos engajado. A pegada da denúncia,  mantém seu ímpeto, mas o show busines passou a fazer parte da  cultura hip hop e a ditar muitas tendências nesse meio.  Fazer um rap não tem mais como inspiração  apenas a denúncia. Os MC’s também estão tendo motivações comerciais para comporem. O que não é ruim. Pelo contrário. O manos estão sacando que podem e devem fazer sucesso e gozar do seu prestígio como fazem, há tempos, os rappers nos EUA. Ser da  periferia também não significa apenas pobreza e violência para os manos e minas . Há  muitos prazeres nos becos e vielas do Subúrbio e essas delícias têm aparecido cada vez mais nas  composições atuais do rap paulistano.

O que se vê hoje é que a cultura hip hop  está bombando como nunca. Cabe é manter uma reflexão permanente sobre seus princípios e  sua essência. É importante fortalecer os grupos de base, as posses que são as típicas organizações de hip hop.  Para conferir todos os aspectos dessa cultura, fruir e  discutir o que rola   atualmente  há,  nada menos do que 10 eventos na   Região Metropolitana de São Paulo. Um já começou e os demais rolam a partir desta sexta, 25 até a terceira semana de agosto. É uma overdose. O pessoal do hip hop deve gostar das baixas temperaturas do inverno paulistano. Não por acaso os Racionais cantavam: “ Faz frio em São Paulo/Pra mim ta sempre bom/Eu tou na rua de bombeta e moleton”. Quer conferir e se aprofundar num dos  maiores fenômenos culturais de nosso tempo? Respire fundo e acompanhe a agenda:

Teatro Hip Hop – 5x4: Particularidade Coletivas – Tendências da Cultura Popular Urbana -  Trata-se de um projeto super- conceitual concebido e realizado pelo Núcleo Bartolomeu de Teatro que há quase 10 anos vem desenvolvendo uma pesquisa sobre o Teatro Hip Hop. Entre os membros da Companhia está o DJ Eugênio de Lima que teve atuação destacada na elaboração do evento. No espaço 5º Andar da Unidade Paulista do Sesc rola desde 20 de junho e segue até 10  de agosto   espetáculos de teatro, oficinas, discotecagens, bate-papos e Cinema. Há também uma exposição Linha do Tempo  que começa em 1973 até os  hoje mostrando a evolução do hip hop. É bacana a parada. Vale à pena conferir. Dá tempo de ver ainda dois espetáculos, entre eles Cindi Hip Hop – Pequena Ópera Rap (estréia dia 01). Nas discotecagens que rolam sempre às quartas,  terão ainda dois DJ’s Willam Robson( 30/07) e Luaa Gabanini( 06/08).  Talvez a apreciação fragmentada da programação não dê ao público a possibilidade de apropriação do conceito do evento, mas a leitura do catálogo ajuda a entender a idéia .  www.sescsp.org.br

Suburbano no Centro – É a quarta edição do evento organizado e  apresentado pelo escritor e agitador cultural Alessandro Buzo que comanda o quadro Buzão Circular Periférico no programa Manos e Minas .  A parada rola nesta sexta 25 no auditório da ONG Ação Educativa. O evento que começou   num Sebo do Centrão,  desde  junho se transferiu para a Vila Buarque também na Região Central e mudou sua  concepção. Buzo, que organiza o tradicional Favela Toma Conta, grande evento de rap realizado  quadrimestralmente no Itaim Paulista, pretende com  o Suburbano no Centro abrir espaço para novos grupos de rap mostrarem seu  trabalho. São 10  atrações: Sniper, Almas Errantes, ROMS, Mano Rogério, Triste realidade, Teoria da Rua, Banca 121, Walter Limonada, Ebenezer e Toroká. Cada grupo apresenta uma música apenas. Para quem quiser ouvir um rap com aquela pegada anos 90 cola  nesta sexta que a diversão é garantida e gratuita. www.acoeducativa.org

Harmônicas Batalhas – Finalíssima do campeonato que começou em março e teve várias eliminatórias realizadas nas quatro Regiões da Capital. Serão cinco batalhas  reunindo bboys e bgirls. Não é homem contra mulher. É tudo junto e misturado, dentro das Crews que disputam o título. O evento acontece no Tendal da Lapa neste sábado às 17h com pocket show  e performance do DJ Guinho. À noite, a partir das 22h  rola a festa de encerramento deste grande evento organizado pelo Instituto Voz com apoio do PAC – Programa de ação Cultural de São Paulo. A balada será no CCPC – Centro Cultural e Popular da Consolação. www.harmonicasbatalhas.blogspot.com

Hip Hop em Ação – Especial de aniversário da  Casa do Hip Hop de Diadema. Este espaço, pioneiro no Brasil em termos de política pública ( a Casa é um equipamento da Prefeitura local ), realiza todo último sábado do mês seu já tradicional evento. Na ocasião  será lançada a Coletânea Uma só Voz – Mantendo o Hip Hop Vivo produzido pela Zulu Nation Brasil, ONG  formada a partir do movimento hip hop do ABC. Vai rolar muito rap, performances de DJ’s, Graffiti e Dança. A Casa do Hip Hop é um reduto do hip hop autêntico, fiel aos seus princípios. Lá é um por todos e  todos por um. Nenhum elemento do hip hop é mais  importante que outro e onde tem um tem todos.
Vale à pena  chegar em Diadema e curtir  a programação que começa as 12h e vai até as 2Oh. www.agendadaperiferia.org.br

DMC Brasil – Reconhecido como o primeiro e mais importante campeonato mundial de DJ’s do Mundo, o DMC começou nos anos 80 na Inglaterra e EUA e se espalhou por mais de 25 países chegando agora ao Brasil. Neste domingo rola a finalíssima  com mais de 10  concorrentes selecionados em eliminatórias anteriores envolvendo DJs de várias partes do Brasil. O evento tem a curadoria do DJ Pogo  que é  inglês e foi vencedor mundial em 1997. O cara anda sempre por aqui e se juntou à Panteras Produções para realizar o DMC no Brasil . O evento é uma super produção, cercada de grandes patrocinadores, muito glamour e apelo midiático. A parada rola no Pacha SP, espaço de festas descoladas na Vila Leopoldina. O  ingresso é caro para os padrões da cultura hip hop: R$ 50,00 homens. O DMC não se restringe ao Hip Hop , mas tem nele sua principal inspiração. Quem  puder conferir vai ter show do DJ inglês Cash Money campeão mundial em edições dos anos 80 do DMC e o DJ brazuca KL Jay ( Racionais MC’s) www.thedmcbrasil.com

8ª Semana de Cultura Hip Hop – Pelo oitavo ano consecutivo, a Ação Educativa realiza o evento que já se tornou um dos mais importantes de São Paulo. Começa nesta segunda-feira, 28 e segue até sexta, 01 de agosto, sempre das 13h as 22h. A programação tem festival de basquete de rua, oficinas, mostra de filmes,  apresentações artísticas, debates e palestras. O tema deste ano é Hip Hop: caminhos para educar. Na quinta-feira rola o Projeto Hip Hop Mulher que lançará o CD Realidades produzido pela rapper Atyeli Queem . Na mesma sessão a DJ Espanhola Delise fará uma aula espetáculo. No show de encerramento, que acontece no Sesc Consolação, tem 9 atrações, entre elas o espetáculo  Dos Tambores aos Toca-Discos com o DJ Erry-G  www.acaoeducativa.org

Sarau do Rap – Há mais de um ano, toda última quinta-feira do mês, o poeta Sergio Vaz realiza em parceria com a Ação Educativa,  este sarau voltado exclusivamente a rimadores e rimadoras do rap. É um espaço de exercício da criação poética. Rap é ritmo e poesia. Mas nessa noite,  se evidencia a poética das letras. Sem música, os MC’s declamam suas composições compartilhando seu talento literário. Vaz, que há  sete anos fundou  o Sarau da Cooperifa, um dos mais importantes da Cidade e o maior da Periferia, sabe como poucos criar um clima de intensa magia em torno da palavra. É bonito. E nesta quinta, 31 de julho, vai ter surpresa. Apareçam. www.acaoeducativa.org

1º Encontro de DJ’s de Hip Hop – Região Metropolitana de São Paulo  - Evento inédito reunirá 35 DJ’s  da região Metropolitana no Centro Cultural São Paulo nos dias 02 e 03 de agosto e tem a curadoria do DJ Erry-G . Na programação tem oficinas,  performances, shows, entre outras atrações, ocupando vários espaços do velho e bom CCSP, inclusive  a Praça das Bibliotecas. É tudo gratuito. A DJ espanhola Delize vai estar por lá nos dois dias. O DJ CIA também passará por lá, mas só no sábado.  Na noite do dia 2 rola uma balada no Sambarylove, agitada casa noturna do Bixiga. No evento será lançado o Mapa Cultural da Periferia – Edição DJ’s de Hip Hop, um produto derivado da Agenda Cultural da Periferia. Realizado pela ONG Ação Educativa a publicação apresenta o perfil de 50 DJ’s de Hip Hop, sendo 10 mulheres. O encontro de DJ’s tem a parceria do Centro Cultural da Espanha, além do CCSP. www.acoeducativa.org


15º CEDECA Hip Hop em Festa – Certamente este é o mais antigo evento de hip hop de São Paulo entre os ativos. Um marco. Acontecerá, como sempre  no primeiro domingo de agosto, ou seja dia 03.  Começou em 1993 tendo  como organizador o CEDECA Sapopemba na Zona Leste. Tem basquete de rua, apresentações de diversas crews, mais de 20 grupos de rap, graffiti, muita animação, e discussões sobre questões de interesse da juventude da periferia. www.agendadaperiferia.org.br

Hip Hop DJ 2008 – A arte dos toca discos – Evento organizado pela 4P que tem entre os sócios o Rapper X e o DJ KL Jay. Acontece desde 1997 e é o mais importante campeonato de DJ’s do Brasil. As seletivas acontecerão nos dias 20 de agosto e 03 de setembro no Studio SP, uma casa noturna muito parceira dos artistas do hip hop.As inscrições já estão abertas.  Este evento já revelou feras como o DJ CIA. Nas Batalhas é que se desenvolve a habilidade no manejo das pick ups. A participação nesses eventos  acaba por posicionar o DJ de Hip Hop entre os mais virtuosos nos scratchs. E já tem aqueles quase imbatíveis. Nas últimas cinco edições  houve apenas dois ganhadores. DJ Tano conquistou nos anos 03,04 e 05 e o DJ Erick Jay defende o bicampeonato de 06 e 07. Os dois podem ser vistos no Encontro de DJ’s de Hip Hop no CCSP. www.hiphopdj.com.br


Perdeu o fôlego? É hip hop até umas hora.  Não há dúvida do vigor dessa  cultura , sua influência e permanência na cena pop contemporânea Mas a polêmica  está colocada. Há quem diga que o hip hop está perdendo espaço nas periferias para o funk pancadão. Outros falam que a Mídia, ao incorporar  a cultura, acaba por deformar sua essência. Talvez não tenhamos que ficar numa discussão  principista sobre os fundamentos da cultura hip hop. O fato é que  Hip Hop resiste e se reinventa a todo momento.Tampouco cabe uma dicotomia arte/engajamento. Até porque não convém essa separação.

Ganhar dinheiro e ficar famoso não é problema. Que tenha mais  filmes como Antonia. Que o Programa Manos e Minas alcance picos de audiência. Que o MV Bill continue aparecendo na Globo. E que também  os Racionais MC’s continuem vendendo centenas de milhares de discos e arrastando multidões sem aparecer na Mídia. Tudo que  os artistas do hip hop puderem  alcançar será pouco diante do que merecem esses jovens , alguns já nem tanto, das quebradas e   que viveram segregados desde criança vendo seus pais comerem o pão amassado no buzão lotado. Hip Hop é por excelência, uma cultura da periferia.  O que não pode é perder a humildade, dignidade e proceder. E essa é uma lição  que os manos  e as minas sabem décor. Vida longa ao Hip Hop!

Eleilson Leite
São Paulo , 25 de Julho de 2008
Para a Coluna Cultura Periférica do Lê Monde Diplomatique Brasil

Leia outras Colunas de Eleilson Leite no Le Monde Diplomatique