A revolução cultural dos motoboys PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
Termina neste sábado, 17 de maio, a 1ª Semana de Cultura Motoboy. O evento começou na última segunda-feira no Centro Cultural Popular da Consolação. Programação tem música, intervenções, mostra de filmes e oficinas.
Termina neste sábado, 17 de maio, a 1ª Semana de Cultura Motoboy. O evento começou na última segunda-feira no  CCPC Centro Cultural Popular da Consolação e conta com uma programação com muita música, intervenções, mostra  de filmes e oficinas entre outras atrações. Durante a semana as atividades rolaram sempre à noite e no sábado começará de tarde com workshops e show de encerramento  a partir  20h, varando a noite.

É tão  surpreendente quanto oportuna a realização deste   evento.  Fomos habituados a ver os motoboys apenas como um bando de malucos que desafiam as leis da física  e os limites do próprio corpo nos estreitos corredores das avenidas da metrópole. E a maioria da população, sobretudo os motoristas nutrem uma antipatia em relação a esses mensageiros  de motocicleta. Para muitos é difícil ver o ser humano que está por traz do capacete. Por outro lado é um fenômeno tão recente que fica compreensivo  a disseminação dos esteriótipo em função da falta de informação e reflexão sobre  o perfil deste tipo de profissional. É chegada a  hora  de darmos  atenção  ao que pensam e desejam esses profissionais que arriscam a vida diariamente  para atender à pressa que temos para entregar documentos, comer pizzas, tomar remédios, entregar flores, receber o jornal, ou seja,  socorrer-nos da maluquice que virou a vida nos centros urbanos em especial a Cidade de São Paulo.

Causa perplexidade o aumento  exponencial dos motoboys que nos últimos 10 anos saltaram de cerca de 50 mil para  um número estimado de  300 mil só  na Cidade de São Paulo. Embora não haja estatísticas seguras, estimativas apontam um número que pode chegar a 500 mil em toda a Região Metropolitana. Quanto mais inviável o trânsito maior a demanda pelo tipo de serviço que este profissional realiza. É uma categoria que surge em função do caos provocado pelos congestionamentos e do jeito que a indústria automobilística vem  produzindo, a  perspectiva é de que teremos mais e mais motoboys pela cidade. Sem que percebamos, estamos cada vez mais reféns desses mensageiros. Há quem diga que uma greve de motoboys causaria mais prejuízo a  São Paulo do que uma greve de ônibus.

Mas existe uma cultura motoboy? Pensando a cultura como a construção simbólica de uma coletividade , cuja expressão revela a identidade desta,  comecei a refletir sobre essa questão.  E é intrigante analisar o que é   afirmação de identidade para este grupo. Conversando com alguns deles, sobretudo os mais antigos, percebi que há uma rejeição ao próprio nome. A definição motoboy se popularizou em virtude do caso do Maníaco do Parque, um bandido que em meados da década de 1990, passando-se por fotógrafo de agência de modelos, atraia suas vítimas para a densa mata do Parque do Estado e ali estuprava e matava  jovens garotas. Esse caso teve enorme repercussão causando uma indignação maior  do que essa que assistimos hoje no caso Izabella Nardone.  O nome motoboy  portanto surgiu estigmatizado. E para piorar a situação,  estatísticas policiais revelaram  nos últimos anos um grande aumento do número de assaltos praticados por ladrões com uso de  motos.

Não é fácil a vida de motoboy e moto girl. Ralam para obter uma remuneração que vai de R$ 250,00 até no máximo R$ 1.200,00 ( casos raros ) em condições de trabalho para lá de precárias, insalubres e periculosas e ainda tem que agüentar o preconceito .Os caras e minas também, têm uma  jornada de trabalho que pode chegar a 16 horas, em três serviços diferentes. Alguns deles começam as 04 da madrugada entregando jornal até as 07h. Depois vem o expediente básico  na agência de motoboys ou numa firma qualquer até 18h. Cruzam a Cidade e  na periferia, onde a grande maioria mora, ainda complementam a renda entregando pizza ali mesmo pela Região. Esse trampo noturno é dos mais ingratos. Normalmente ganham uma diária de R$ 15,00 e mais R$ 1,00 por pizza entregue. Ou seja,  se fizer 15 entregas numa noite, receberá R$ 30,00. Essa realidade e muitos outros dramas ( e delícias também ) da vida  desses profissionais estão no brilhante documentário Motoboys  Vida Loca de Caito Ortiz, uma produção de 2003 que foi premiada na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo naquele ano. Ajuda  também a entender o coração que bate em baixo da jaqueta do motoboy, o belo filme do cineasta  Ricardo Elias ( De Passagem )  12 Trabalhos que conta a história do jovem  Heracles que, saído da  antiga Febem, tenta recomeçar sua vida trabalhando  com moto-frete. Embora seja uma ficção, esta produção de 2006 tem uma  revela com enorme sensibilidade o perfil de um motoboy.

A cultura motoboy  é um produto do contexto social em que vive esse profissional. Sendo esse contexto caótico, urgente  e tenso por natureza, não há como essa cultura não expressar  a paisagem urbana que lhe serve de cenário. O motoboy e a  motogirl  são a própria metáfora  do caos urbano. São ao mesmo tempo  heróis e bandidos numa cena onde o protagonista  não é o ser humano e sim o veículo motorizado seja o carro, moto, ônibus  ou caminhão. São a expressão de um dos lados  da luta fratecida pelo espaço público. Cada metro quadrado de asfalto é defendido por motoqueiros e motoristas como  se dele dependesse suas vidas, seus  destinos . Vivendo nessas artérias que são os corredores das grandes avenidas,  os motoboys  acabam sendo  a tradução explícita da alegoria  de Brecht:   um rio cuja violência das águas é produto da opressão das margens que o comprimem.

Contracenado neste caos, o motoboy é ele mesmo parte dessa confusão e sua afirmação enquanto grupo é carregada de contradições. Quem  ele é fora do front? Ele leva para sua casa e comunidade toda essa adrenalina do dia a dia do trampo?  O filme do Caito Ortiz é muito feliz ao  desconstruir esteriótipos. Lá tem uma moto girl de 44 anos, que  pede para que o destino lhe reserve   um acidente fatal. Assim ela se livraria da dor que foi a perda do filho morto aos 18, a separação do marido e o afastamento da filha que resolveu casar e sumir. Ronaldo é outro personagem real do filme  e que contradiz  a percepção que temos do motoboy. Empregado com carteira assinada e salário de R$ 1.200,00, ele tem  34 anos e  não tem pressa. Faz o trampo na boa e no final dia chega na sua quebrada e é recebido em casa pela mulher e o casal de filhos. Já o Gavião, garoto  de vinte e poucos anos é o “Cachorro Loco”, denominação usada na periferia para aquele   motoqueiro arrojado, ousado  e que atrai a atenção das minas com suas loucuras ensaiadas. Ele adora ser motoboy porque gosta da adrenalina do trânsito . Parece  um  “sem destino”, um sujeito que não responde a ninguém que não seja ele próprio, ostentando a máxima segundo a qual, se morrer em cima da moto, “morre feliz”. Que nada. Mora com a mãe  que lhe prepara o café da manhã com carinho, reclama da roupa suja e  das unhas mal cuidadas do filhinho e que todos os dias reza para que  ele possa “arrumar um emprego decente “.  

A diversidade revelada pelo documentário Vida Loca, nos coloca a indagação. Teria os motoboys enquanto categoria um sentimento de pertencimento que desse um conteúdo  cultural a sua afirmação?  Fiz essa pergunta ao Eliezer Munis, o Neka, um dos fundadores  do canal*Motoboy, coletivo que organiza a Semana de Cultura Motoboy. Segundo ele, há vários elementos  comuns que criam uma identidade. A roupa, a moto adesivada, a solidariedade entre eles, a procedência periférica e a  classe social são alguns desses elementos. Mas Neka destaca outro aspecto  muito interessante e talvez  menos  evidente: a semântica. O motoboy e a motogirl  construíram uma linguagem própria.

Expressada quase que totalmente pela oralidade, esse vocabulário agora pode ser lido   pelas narrativas dos motoqueiros que integram o canal*Motoboy na página que mantém na Internet: www.zexe.net/SAOPAULO . São 10 motoqueiros que se juntaram por iniciativa do artista plástico catalão Antoni Abad no Projeto artístico Motoboys Transmitem de Celulares realizado durante três meses no CCSP - Centro Cultural São Paulo no primeiro semestre do ano passado. Cada um deles recebeu um celular de alto padrão tecnológico  com conexão à internet e para o site enviavam fotos e textos revelando sua percepção sobre a vida na cidade. Antoni desenvolveu experiências semelhantes com prostitutas em Madri, imigrantes nicaragüenses na Costa Rica e taxistas na Cidade do México.  Está tudo lá no mesmo site.

A realização deste trabalho teve o apoio do centro Cultural da  Espanha e durante  e após o término da exposição no CCSP, o grupo atraiu diversos parceiros, entre eles a Cidade do Conhecimento da USP, o ISA – Isntituto Socioambiental e a Ação Educativa. Vale a pena navegar pelo site. Lendo as narrativas nos surpreendemos com relatos do drama vivido pelos motoboys, mas também nos divertimos com a comunicação entre eles. Percebemos uma preocupação com a cidade e nos chocamos com os acidentes que as vezes são noticiados. O motoboy é um repórter privilegiado. E essa produção rápida de notícia feita por que m sabe bem o que é urgência, tendo um veículo midiático ao alcance, certamente está produzindo um indicador  muito interessante e revelador  do que pode ser a cultura motoboy.  

A Semana de Cultura Motoboy e o canal*Motoboy estão dando uma contribuição enorme para entendermos a vida dessa gente tão batalhadora quanto estigmatizada. A capacidade de articulação deste grupo tem produzido  parcerias muito interessantes.    A aproximação com o ISA vem possibilitando o engajamento do motoboy em questões ambientais urbanas das mais relevantes. Você sabia que um motoboy utiliza três litros de óleo em média por mês e  uma vez utilizado esse resíduo vai, na maioria dos casos,  para o esgoto? Segundo o ISA cada litro de óleo contamina 1 milhão de litros de água. Você pode imaginar 900 mil litros de óleo contaminando a água?  Por outro lado, o contato com a Ação Educativa está pautando a questão do letramento entre os motoboys e suas dificuldades de leitura e escrita. A Cidade do Conhecimento está proporcionando capacitações em mídia digital. Ou seja, há um movimento em torno de um  pequeno grupo de motoboys que pode produzir uma grande revolução na categoria.

Muitas outras iniciativas estão rolando e ainda dá tempo de tomar contato com  o canal*Motoboy  e participar de seu evento. Apareça nesse sábado no CCPC e você mudará seu conceito em relação ao motoboy.

Antonio Eleilson Leite
Para a Coluna Cultura Periférica do Caderno Brasil do Lê Monde Diplomatique
São  Paulo, 15 de Maio de 2008

Serviço:  
Agenda Cultural da periferia: www.acaoeducativa.org.br/agendadaperiferia
1ª Semana de Cultura Motoboy – De 12 a 17 de maio – Sábado 17, 15h oficinas: Teatro ( com Fernanda Azevedo – Cia Kiwi de Teatro; Grafite – IZU 100% Favela; Meio Ambiente – César  Pesaros. As 19h Jam Session ( traga sua banda ) CCPC – Rua da Consolação 1901, grátis.
 
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