A periferia é lugar sagrado para os Guarani PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
Leia coluna de Eleilson Leite sobre a organização social indígena na periferia de São Paulo e o Julgamento Popular de Borba Gato, no próximo dia 19.



Ao tratar da questão indígena a  gente comete tanto erro, seja por desconhecimento ou preconceito e muitas vezes os dois juntos, sendo um resultado do outro. A começar pela  forma  de se referir  a essas  populações tradicionais, chamando-as genericamente de  índios. Existem povos  e nações indígenas. É comum pensarmos também que os indígenas estão desaparecendo, integrando-se à sociedade branca e abandonando sua cultura de forma irreversível. Não é bem assim. No Brasil existe uma população 734 mil indígenas segundo o IBGE em levantamento de 2000. No censo de 1991 eram 294 mil. Evidentemente que não houve o boom de natalidade. É que muitas pessoas, antes não identificadas como  indígenas  passaram a  assim  se declarar. Há um certo orgulho indígena. Colaborou para isso, a adesão do Brasil à Convenção 169 da OIT – Organização Internacional do trabalho. Convertida em lei ordinária pelo presidente Lula em 2004, essa convenção estabelece a auto-declaração como critério fundamental pra reconhecimento de comunidade indígena, dispensando os laudos de identificação étnica.  

O Instituto socioambiental que há cerca  30 anos monitora os Povos Indígenas no Brasil, identifica 225 povos que abrigam cerca de 600 mil pessoas, ocupando uma área de 1,08 milhão de km2, pouco mais de 4 vezes a área do Estado de São Paulo. E tem muitas comunidades indígenas nas grandes cidades. Você sabia que em  São Paulo tem quatro aldeias indígenas que juntas, somam 1500 pessoas? E há mais  um contingente ainda não calculado de indígenas não aldeados  na Capital e nos demais municípios da Região Metropolitana.

Falar de povos indígenas  para quem está na Grande Metrópole  parece sempre algo distante de nossa realidade. Mas eles estão aqui junto da gente.  Muitas vezes  os defendemos  e não os conhecemos. E  aqui na cidade de São Paulo , os indígenas ficam na periferia. E nas  bordas da Cidade é onde devem ficar mesmo. Onde há ainda Mata Nativa, vento fresco, ar puro. Para os Guarani, os locais escolhidos para as aldeias, apresentam características especiais reveladas por Nhanderu, o criador: recursos da flora, fauna, formações rochosas, ruínas. Esses locais  possibilitam o acesso à  Yvy Maraẽ’ỹ a terra sem mal( cf. Ladeira, 2000, citado por Grupione, 2007) Olha só! A periferia paulistana vista pela concepção religiosa Guarani adquire ares de lugar sagrado.

Recebi do antropólogo Luiz Donizete Benzi Grupione, secretário executivo do Iepé – Instituto de pesquisa e Formação em Educação Indígena,  um estudo de sua autoria que dá um quadro muito abrangente e criterioso da situação dos indígenas paulistanos. Segundo Grupione,  as quatro aldeias aqui existentes são do Povo Guarani.  Presentes também em outros países da América do Sul, os Guarani, no Brasil somam  35 mil pessoas que se dividem em três sub-grupos: Guarani Kaiowa, Guarani Nhadéva  e Guarani Mbya. As aldeias paulistanas são todas deste último sub-grupo e representam cerca 25% do total de Guarani Mbya do País. As aldeias de São Paulo ficam no Jaraguá, Zona Oeste e são Tekoa Pyau e Tekoa Ytu. Em  Parelheiros na Zona Sul, divisa com São Bernardo do Campo ficam as aldeias Krukutu e Tenonde Porá.

De acordo com o mesmo estudo, as aldeias foram criadas nas décadas de 1960, sendo reconhecidas nos anos 80, exceto a Aldeia Tekoa Pyau no Jaraguá, cuja população de 320 pessoas   está em luta por sua regularização. Há uma série de iniciativas do  Estado e da Prefeitura,  junto às comunidades, sobretudo na última década, como por exemplo a construção de casas de alvenaria por parte do CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano na aldeia Tenonde Porá. Há também unidades de saúde,  programas sociais de transferência  de renda, escolas estaduais que cobrem o ensino fundamental, além dos  CECIs _ Centro de Educação e Cultura Indígena, criado pela Prefeitura de São Paulo em 2004 na gestão da então  Prefeita Marta Suplicy.

Os CECIs  oferecem educação infantil com ensino monolingüe em guarani, com professores indígenas.  Cada aldeia tem um  equipamento deste. Em suas instalações, cuja arquitetura foi desenvolvida levando em conta suas concepções,  as comunidades realizam diversas atividades culturais, reuniões, encontros, recebem escolas e demais  grupos interessados, comercializam artesanato entre outros produtos. A comunidade Tenonde Porã, tem um coral muito destacado e já gravou dois CDs, sendo que o segundo reuniu grupos vocais  das outras três aldeias, além de comunidades do Litoral Paulista e do Rio de Janeiro.

Há portanto uma  organização social indígena  muito bem articulada aqui na periferia paulistana. E nem mesmo os artistas periféricos conhecem bem essa realidade. Talvez a maioria saiba que existe, mas definitivamente a vida indígena na metrópole não lhes serve de inspiração. Ano passado, quando fui escrever nesta mesma Coluna sobre  a cultura negra e sua influência na Periferia, cerquei-me de farta literatura. Eventos tinha aos montes. Ao pautar a cultura indígena porém, vi-me  num deserto. Examinei quase trinta publicações de literatura periférica entre livros ( poesia, conto, dramaturgia e romance), cadernos literários, revistas, fanzines. Encontrei apenas um poema. Ainda sim é uma poesia de protesto que trata dos garotos de classe média de Brasília que atearam fogo num indígena que dormia no ponto de ônibus, caso famoso que comoveu o País anos atrás.

O referido  poema chamado Mendígenas é do grande poeta Binho e está em seu livro Dois Poetas e Um Caminho, escrito em parceria com Serginho Poeta, publicado no ano passado pela Edições Toró. Não por acaso, o fundador do  famoso sarau  periférico que leva seu nome, é também um dos que  idealizadores do único evento que consta na edição de abril da Agenda  Cultural da  Periferia que aborda a questão indígena. Trata-se do Julgamento Popular de Borba Gato. O Bandeirante imortalizado com uma imponente estátua que virou ponto turístico de Santo Amaro há décadas, será questionado por seus crimes contra índios e negros  sendo condenado em praça pública aos pés do monumento a ele erguido na Av. Adolfo Pinheiro. O ato, organizado pelo Coletivo Epidemia e  mais uma dezena de outros grupos, terá pintura, dança, sarau  e muito protesto criativo, irreverente e contundente.  

É curioso porém, o fato de não ter nenhum grupo indígena na organização do protesto. Mas por outro lado as aldeias de São Paulo  estarão em grande agitação cultural. Nos CECIs, haverá muitas atividades artísticas e também debates, discussões sobre a questão indígena urbana. Há outro evento também, mas na Cidade de Osasco que reúne uma bela mostra da cultura dos Pankarare que são indígenas migrados que  habitam a periferia daquela cidade. O evento que terá música, dança, artesanato, uma Oca em tamanho natural , além de outros elementos da cultura deste povo estará aberta durante este final de semana no Shopping Osasco Plaza. Organizado pelo Programa Osasco Solidário, esta atividade visa aprimorar e difundir o empreendimento dos Pankarare na lógica da Economia Solidária.

Não é louco isso? Os artistas da periferia, articulados com coletivos de classe média universitários fazendo protesto aos pés do Borba Gato a fim de condenar o algoz dos índios pelos crimes de genocídio cometidos e esquecidos pela história oficial. Enquanto isso, os indígenas, principais interessados neste julgamento,  estão lá em suas aldeias festejando ou num Shopping vendendo seus produtos. Em ambos os casos, com apoio direto  do Poder Público freqüentemente acusado de omissão. A realidade realmente  é mais complexa do que aquilo que nossa vã filosofia pode supor . Todo mundo está certo nessa história.  O protesto sem dúvida é oportuno e espero que atraia muita gente. E os indígenas têm mais é que fazer seus eventos de afirmação e comercialização.

O que é   preciso é ampliar o   diálogo,estabelecer conexões e alianças,   conhecer e se envolver com a cultura  indígena, especialmente dos que habitam conosco   o espaço urbano.  Assim, conseguiremos  com êxito, “repensar a história do nosso povo”, como diz a convocatória do julgamento popular.  Neste Dia do Índio, vamos  à Santo Amaro condenar o Borba Gato sim, mas vamos também às aldeias em  Parelheiros e no Jaraguá conhecer o lugar sagrado dos Guarani.  Em Osasco vamos prestigiar  a cultura do povo  Pankarare. Nunca foi tão interessante ir a um Shopping Center. Se não for a nenhum desses lugares, vá à livraria mais próxima. Procure na seção  infanto-juvenil, os livros do Daniel Munduruku. Este autor indígena tem vários livros publicados por grandes editoras. Só pela Global são oito obras. Uma delas  tem  título extremamente sedutor e é uma excelente pedida: A primeira estrela que vejo é a estrela do meu desejo.
Que Nhanderu proteja todos nós.


Eleilson Leite
São Paulo, 17 de Abril de 2008
Para a Coluna Cultura Peirférica do Caderno Brasil do Lê Monde Diplomatique

Serviço
Julgamento Popular do Borba Gato
Dia 19 de abril, a partir das 11h
Av. Adolfo Pinheiro, em frente à estátua do Borba Gato
Informações: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
www.acaoeducativa.org.br/agendadaperiferia

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