A centralidade da cultura nos processos políticos PDF Imprimir E-mail
Sex, 30 de Abril de 2004 21:00
Leia coluna de Eleilson Leite, coordenador do Espaço de Cultura e Mobilização Social da Ação Educativa.



“Muitas vezes, uma comunidade extremamente pobre, pode ser culturalmente rica”. Ouvi essa frase do diretor técnico de relações culturais e científicas da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, Alfons Martinelli numa palestra por ele proferida nesta semana no Centro Cultural da Espanha em São Paulo. O diplomata espanhol que passava por aqui para participar de evento internacional realizado no Instituto Itaú Cultural,  reafirmou  com sua fala, nossa crença de que a cultura, vista como central no processo de desenvolvimento humano, pode efetivamente produzir transformações. Daí a necessidade  de contemplar os processos culturais nas aferições  do IDH – Índice de desenvolvimento Humano. “ O IDH não estará completo sem a cultura”, completou Alfons.

A cultura é por si geradora de desenvolvimento na medida em que estimula processos criativos, individuais ou coletivos. Todo ser humano tem potencial criativo e por isso é um agente cultural em potencial. A cultura é a expressão da criatividade humana. É a produção simbólica de um grupo, uma comunidade, um povo. A arte é apenas uma dimensão da cultura. A culinária, o vestuário, as manufaturas, o conhecimento e suas formas de transmissão, tradições, crenças, arquitetura, enfim, todas as formas que os homens e mulheres desenvolvem para viver, são manifestações culturais. E nada é mais revelador de um povo, do que a sua cultura. Por que nela está sua identidade. E a afirmação da identidade de um povo produz um sentido de pertencimento que pode mobilizar multidões.

Por isso é importante ressaltar a cultura feita nas periferias urbanas. Nessas regiões, as comunidades se organizam  em torno de sua cultura. Eu já disse aqui uma coisa que já foi dita por outros: a comunidade se expressa em função do que tem, diferente do movimento social reivindicatório que se manifesta em função do que não tem. Essa manifestação tem uma carga política poderosa, mas que o pensamento político tradicional de esquerda pouco percebeu ao longo da História. A mais importante exceção, pelo menos na tradição marxista, é o Gramsci.

O pensador italiano, ativista revolucionário, morto em 1937 com apenas 46 anos, deixou em seu legado teórico essa visão da centralidade da cultura nos processos políticos. E Gramsi não falava em alta cultura e cultura popular. Não via a cultura em termos de hierarquia e também entendia bem a diversidade cultural. Ele falava em cultura hegemônica e subalterna, ensinando-nos que a cultura só é subalterna enquanto as classes populares não tiverem  consciência de si. E eu acredito que essa consciência vai além da percepção da exploração capitalista que pesa sobre o trabalhador, foco do pensamento marxista clássico. Eu vejo na produção artística feita nas periferias urbanas seja nos fundões miseráveis, seja nas áreas mais estruturadas, um elemento fundamental de afirmação de classe. Afirmar a cultura dos que estão nas beiradas da Cidade significa portanto, produzir um processo político contra-hegemônico.



Tem gente que fala que é necessário “politizar”, por exemplo, as rodas de samba. Ora, é preciso fazer um rebuliço   na cabeça de quem pensa dessa maneira. Vá no Sarau da Cooperifa e ouça poesias feitas por gente que mal domina os códigos letrados e que, por meio dos versos, expressa sua consciência de classe. Em um dos saraus de março, comemorativo do Dia da Mulher, uma senhora negra, magra com um sorriso do tamanho do rosto pegou o microfone. Na primeira estrofe do poema de sua autoria, o burburinho sumiu. Todo mundo ficou ligado na declamação. Não me lembro o nome dela. Foi a primeira vez que ela apareceu no Zé Batidão. Com um humor desconcertante, esta empregada doméstica contou em seu poema o quanto sofreu na mão das patroas abusadas, até que um dia resolveu dar um pé na bunda de uma delas, largando a “mardita” em seu apartamento de luxo.  Eliane Brum, estava por lá e ouviu. Esta jornalista tem, como poucos, o dom de ver a vida que ninguém vê. Espero que ela escreva sobre essa mulher revelando-nos o quanto a sensibilidade artística pode revolucionar vidas.

Certa vez uma repórter perguntou ao poeta Sergio Vaz quantos jovens, entre os freqüentadores do sarau da Cooperifa, teriam deixado o crime depois do contato com a poesia. Vaz, com sua sagacidade impagável, respondeu que não sabia, mas que por outro lado conhecia dois ou três que entraram no crime depois de terem se tornado poetas. Brincadeira à parte, a gente pode interpretar com essa fictícia história de poeta criminoso, uma tomada de consciência. Por que uns bacanas podem andar de rolex por aí e eu não tenho o que comer? Essa indagação pode  ser o combustível para um delito.  Na Quebrada,  não dá para esperar ter consciência de classe para depois dar um jeito na vida. As vezes é preciso fazer uns “corre”.

Evidentemente que roubar seja o que for, de quem quer que seja, não é uma virtude. Não quero fazer apologia do crime. Tem muito nóia na Quebrada que rouba trabalhador pra comprar droga. O fato é que o roubo, o saque são possibilidades que estão ao alcance dos que não tem o que nada temer. Certos delitos têm fundamento na miséria. O roubo pode ter motivação de classe. Aliás, o  historiador marxista inglês Eric Hobsbawn cunhou a brilhante definição “bandido social”  no livro Bandidos. Nesta obra, de 1969, ele fala até do nosso glorioso Lampião, cuja morte completa 70 anos em 2008. O rei do Cangaço é muito celebrado por artistas da Periferia. Você sabia que o nome Ferréz é inspirado no Virgulino Ferreira? O Reginaldo Ferreira da Silva é fã do Lampião. Quem também rende homenagens ao cangaceiro é o Gaspar, MC do famoso grupo Z’África Brasil. No disco Quem tem cor age, tem um belo rap dedicado ao nosso “bandido social” do Nordeste.



Retomando a fala do Alfons Martinelli, a questão é  que a cultura gera desenvolvimento porque desperta capacidades. A gente só não pode ficar muito no discurso idealista do desenvolvimento humano. Uma concepção  que só vê virtude nos que aderem ao projeto de uma ONG, que freqüentam as oficinas de batuque, enfim, dos que se alinham naquela visão de “inclusão cultural”. Não há nada mais despolitizado do que esse papo de inclusão. A cultura gera movimentação social, desperta consciências, embrenha processos políticos, promove transformações. E a cultura é prazer, diversão, delícias, encantamento. A cultura tem valor em si. Ela se distingue em função da distinção dos grupos sociais. Por isso falamos de cultura da periferia. E por mais que uma cultura seja representativa de um grupo, ela é sempre universal, isso o professor espanhol Alfons Martinelli também nos lembrou em sua palestra.  

É um equívoco querer instrumentalizar a cultura. É um tal de cultura contra a violência, cultura para a educação, cultura pra tirar criança da rua. A cultura virou uma panacéia que serve para tudo.  A cultura é um caldeirão de caldo grosso. Nesse caldo tem muito tempero. Tem os doces aromas de ervas verdes, mas tem pimenta brava também. Dele fazem parte diferentes atores sociais que  agem de várias formas.  Uns com o pincel ou spray, outros com o tamborim, a dança, o canto. E tem os que agem com o canivete ou uma pistola numa mão e a caneta na outra. Faz parte.  

O processo social tem que ser visto na sua complexidade. Assim a gente vai perceber que numa localidade pobre, periférica tem vida cultural ali brotando e pode se tornar uma frondosa árvore. Tem muita gente que se diz revolucionária e desqualifica o funk pancadão por exemplo, esquecendo-se que, com seu desprezo, vai junto o povo que gosta dessa música, ou seja,  o povo do qual este suposto revolucionário espera adesão a seu discurso iluminista. É preciso observar a cultura como uma dimensão essencial da dinâmica social. Perceberemos assim que a cultura tem centralidade nos processos políticos.  Para isso, basta a gente ver a cultura pelo que ela é e não por  aquilo que a gente quer que ela seja.


Eleilson Leite
São Paulo, 11 de abril de 2008
Para a Coluna Cultura Periférica, do caderno Brasil do Lê Monde Diplomatique